Com avaliações divididas entre comércio, turismo e quiosqueiros, temporada 2025/2026 expõe desafios e oportunidades para o principal destino do Litoral Norte gaúcho.

A temporada de verão 2025/2026 em Torres terminou com avaliações divididas entre empresários e representantes do setor turístico. Enquanto parte dos comerciantes relata queda no movimento e nas vendas, outros consideram que os resultados ficaram dentro das expectativas. A redução do número de turistas argentinos, o comportamento do clima e a necessidade de ampliar eventos e atrações aparecem entre os fatores apontados para explicar o desempenho da temporada. Ao mesmo tempo, o município também contabiliza a arrecadação gerada por atividades ligadas ao verão, como os quiosques na faixa de areia.
MOVIMENTO MENOR NO COMÉRCIO
Entre os setores que sentiram maior impacto está o comércio varejista. A presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Torres (CDL), Karen G. de Mendonça Terres, afirma que as expectativas para o verão eram positivas, principalmente pela possibilidade de maior presença de turistas argentinos, que tradicionalmente movimentam a economia local.
Segundo ela, esse fluxo acabou não se confirmando e o resultado foi uma redução significativa nas vendas em comparação à temporada anterior.
De acordo com a dirigente, o comércio registrou queda entre 20% e 30% nas vendas em relação ao verão passado. O início da temporada chegou a apresentar um movimento favorável, especialmente entre o final de dezembro e os primeiros dias de janeiro, mas o cenário mudou nas semanas seguintes.
Outro fator apontado foi o comportamento mais cauteloso do consumidor brasileiro. Segundo Karen, diante do cenário econômico atual, muitos turistas passaram a controlar mais os gastos, priorizando produtos considerados essenciais.
Para enfrentar esse cenário, muitos lojistas precisaram recorrer a promoções e estratégias comerciais para manter o fluxo de vendas e equilibrar as contas durante a temporada.
MENOS ARGENTINOS E IMPACTO NA ECONOMIA LOCAL
A redução no número de turistas argentinos foi um dos fatores mais citados pelos representantes do setor turístico. A presidente do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes do Litoral Norte do Rio Grande do Sul, Ivone Ferraz, avalia que o verão foi bastante diferente do que o setor esperava.
Segundo ela, o movimento ficou cerca de 25% abaixo do registrado na temporada anterior, que havia sido considerada muito positiva para hotéis, restaurantes e bares da região.
Entre os motivos apontados está uma medida econômica adotada na Argentina que acabou encarecendo a saída de turistas do país, o que reduziu o fluxo de visitantes para o litoral gaúcho. Além disso, o clima também influenciou no comportamento dos turistas ao longo do verão.
Ivone destaca que muitos dias de tempo instável ou com menos sol impactaram diretamente o movimento em bares, restaurantes e estabelecimentos ligados ao turismo de praia.
Mesmo com esse cenário, o setor ainda aposta em outros períodos do ano para recuperar parte do movimento, especialmente feriados prolongados e eventos que possam atrair visitantes ao longo de 2026.
COMÉRCIO APONTA NECESSIDADE DE MAIS ATRAÇÕES
Além das questões econômicas e climáticas, empresários também defendem que o município precisa ampliar o número de atrações e eventos durante a temporada.
Para a presidente da Associação do Comércio, Indústria, Serviços, Agronegócios e Turismo de Torres (Acissat), Aline Lens, o verão apresentou percepções diferentes entre os comerciantes.
Segundo ela, parte do setor avaliou o movimento como abaixo do esperado, enquanto outros empresários consideraram que o resultado ficou dentro das expectativas.
A dirigente afirma que muitos comerciantes apontaram reclamações de turistas sobre preços praticados na cidade e também sobre a falta de atrações que dialoguem com um público que busca uma experiência mais festiva durante o verão.
De acordo com Aline, fortalecer a divulgação do destino, ampliar eventos e qualificar ainda mais a experiência turística são medidas consideradas importantes para as próximas temporadas.
QUIOSQUEIROS RELATAM DESAFIOS NA FAIXA DE AREIA

Entre os trabalhadores diretamente ligados à praia, os desafios também foram significativos. O empresário Rodrigo Nunes, que atuou com um quiosque na areia da praia em frente à guarita 7 dos salva-vidas, relata que a experiência foi intensa e marcada por dificuldades.
Para operar na faixa de areia é necessário participar de um processo de licitação promovido pela prefeitura. Segundo ele, o processo enfrentou problemas desde o início.
Inicialmente foi lançado um edital que acabou sendo cancelado pela própria administração municipal. Posteriormente, um novo edital foi publicado com mudanças que elevaram significativamente o valor mínimo das propostas.
Na prática, isso fez com que o investimento necessário para operar um quiosque durante apenas uma temporada praticamente dobrasse. Rodrigo afirma que precisou desembolsar cerca de R$ 86 mil antecipadamente para garantir o ponto de venda.
Além disso, o atraso na liberação para instalação das estruturas também trouxe prejuízos. O acesso à praia para montagem dos quiosques foi autorizado apenas próximo ao Natal de 2025, o que reduziu o tempo de preparação e fez com que muitos estabelecimentos começassem a operar somente após a virada do ano.
Como os primeiros dias da temporada costumam concentrar grande movimento de turistas, o atraso acabou representando perda de faturamento para vários permissionários.
CONCORRÊNCIA IRREGULAR PREOCUPA TRABALHADORES
Outro ponto levantado por Rodrigo Nunes foi a concorrência considerada irregular na faixa de areia. Segundo ele, vendedores informais e até restaurantes da cidade passaram a vender alimentos e bebidas diretamente na praia.
Essa situação, segundo o empresário, cria um cenário desigual para quem participa do processo licitatório e precisa cumprir uma série de exigências legais, incluindo pagamento de taxas, estrutura adequada, contratação de equipe e fiscalização sanitária.
Ele afirma que chegou a procurar a fiscalização municipal para relatar o problema, mas considera que a atuação foi limitada. Em alguns casos, estabelecimentos chegaram a ser notificados, porém vendedores continuaram atuando na praia ao longo da temporada.
Rodrigo também relata que, ao tentar reunir provas da atividade irregular, enfrentou ameaças. Entre os episódios, ele menciona ameaças de incêndio ao quiosque e até de morte, situação que resultou em registro de boletim de ocorrência.
Diante desse cenário, o empresário avalia que o modelo atual de exploração dos quiosques precisa ser revisto para garantir condições mais equilibradas de trabalho.
ARRECADAÇÃO COM QUIOSQUES PODE CHEGAR A R$ 2 MILHÕES
Apesar das dificuldades relatadas por parte dos trabalhadores da praia, a prefeitura também contabiliza a arrecadação gerada pela atividade. Segundo informações da administração municipal, o valor arrecadado com os quiosques na beira-mar ainda não foi totalmente fechado, mas deve girar em torno de R$ 2 milhões.De acordo com o Departamento de Comunicação do município, o recurso será destinado ao fundo municipal da indústria e comércio.
A aplicação desse valor ainda não foi definida. Segundo a prefeitura, os recursos dependem da elaboração de projetos e da aprovação pelo conselho responsável pelo fundo.
DESAFIOS E PERSPECTIVAS PARA O TURISMO

O balanço da temporada indica que Torres continua sendo um dos principais destinos turísticos do litoral gaúcho, mas também revela desafios importantes para os próximos anos.
Entre as principais demandas apontadas por empresários estão o fortalecimento da promoção turística, a ampliação de eventos e atrações, melhorias na organização da atividade econômica na praia e ações que incentivem a permanência dos visitantes por mais tempo na cidade.
Para representantes do comércio e do turismo, a combinação entre as belezas naturais da cidade e uma programação cultural e de entretenimento mais ampla pode ser um caminho para fortalecer ainda mais o destino e garantir temporadas mais equilibradas para todos os setores da economia local.