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A desconstrução do outro

por Nicole Corrêa Roese

Iniciaram-se oficialmente os embates e debates que irão culminar com as eleições em outubro deste ano. Um ritual que se repete a cada 4 anos desde 1989 (37 anos). Considerando que a primeira eleição direta para presidente aconteceu em 1894 e se estendeu num período até 1930, ano em que o presidente eleito não assumiu, temos o período com maior sequência de processos eleitorais em nível nacional. E há um entendimento em que o avanço dos processos é uma oportunidade de amadurecimento e evolução. Um tempo de refino.
Em se tratando da dimensão política eleitoral, não é o que estamos assistindo. É complicado que alguém sustente a ideia de estarmos vivendo um momento novo e melhor no campo dos debates políticos. É mais fácil encontrar fatos e razões para afirmar que estamos vivendo retrocessos.
Prova disso é o que vem se ensaiando como debate. Um primeiro deles ficou esvaziado e o tom dos discursos foi a acusação. Parece que vai se estender por este caminho: para vencer, a aposta é a desconstrução do outro.
Recordo de campanhas em que o foco eram as propostas a partir da leitura de situações concretas da vida pública. Temas relacionados a setores fundamentais da vida em sociedade como economia, saúde, educação, trabalho e segurança, dentre outros, definiram a pauta dos enfrentamentos. Hoje, o investimento está em descobrir e insistir no ponto fraco do outro. Temas como “corrupção”, “desvios” e “relações suspeitas” ganham destaque. Um suposto moralismo ganha holofotes.
No embalo desta dinâmica, eleitores e eleitoras assumem a tarefa de enfrentar o diferente como inimigo a ser desconstruído e até eliminado. A escolha da cor de bandeira está dada para um grupo significativo e então debates são esvaziados. Argumentos são apenas estratégias usadas e descartadas.
Assusta o resultado que poderemos colher disso tudo. Eliminação passou a ser regra, tal como joguinhos ou um reality show em que o herói é quem mais desconstrói (ou extingue) os outros.