Símbolo de Torres há séculos, corpo d’água enfrenta urbanização, pressão ambiental e o desafio de conciliar preservação, turismo e lazer.

A história da Lagoa do Violão começa muito antes dos mapas, das ruas e das pessoas que hoje circulam por suas margens. Sua origem está relacionada à evolução geológica da Planície Costeira do Rio Grande do Sul, moldada por oscilações do nível relativo do mar, pela ação das ondas e correntes, pelo transporte de sedimentos e pela formação e transformação de barreiras arenosas.
Conforme as pesquisas da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Torres e pelo jornalista e historiador Nelson Adams Filho, reunidas na Coleção História Torres, esse processo pode ser compreendido a partir das sucessivas regressões marinhas que transformaram a paisagem costeira ao longo do tempo geológico. O recuo do mar contribuiu para a formação de sistemas de barreiras arenosas, dunas, áreas pantanosas, canais e lagoas. Entre essas estruturas, destaca-se o Sistema Laguna-Barreira III, fundamental para a configuração da atual planície arenosa do Litoral Norte gaúcho.
Na região de Torres, esse sistema se estende por aproximadamente 90 quilômetros em direção a Tramandaí. Estruturas semelhantes aparecem também em Santa Catarina, a partir do Passo de Torres, avançando para o norte.

A estimativa de que a origem da lagoa esteja relacionada a processos iniciados há cerca de 140 mil anos, porém, precisa ser tratada com rigor. Os estudos sobre a evolução da planície costeira ajudam a explicar a formação do ambiente, mas não há datação direta dos sedimentos da própria Lagoa do Violão que permita afirmar, com segurança científica, que ela tenha exatamente essa idade.
O conhecimento disponível aponta a lagoa como uma feição natural da Planície Costeira de Torres, relacionada à evolução dos sistemas Laguna-Barreira e, especialmente, às transformações ocorridas durante o Holoceno, iniciado há aproximadamente 11.700 anos.
Quanto mais se recua no tempo, mais a história precisa ser reconstruída por evidências geológicas. Nos últimos séculos, entretanto, mapas, relatos de viajantes e documentos militares ajudam a revelar que a lagoa já fazia parte da paisagem muito antes da urbanização.
MAPAS E MEMÓRIA
Um dos primeiros registros conhecidos da antiga Lagoa das Torres aparece na Planta do Continente do Rio Grande, elaborada pelo engenheiro militar José Correia Rangel entre 1786 e 1789, integrante do manuscrito A Defesa de Santa Catarina e do Rio Grande de São Pedro.
Em 1842, o major engenheiro Jerônimo Francisco Coelho elaborou a Planta das Torres e suas Imediações, documento do Exército Imperial que registra a “Lagoa das Torres” e sua ligação com o rio Mampituba por meio de um canal.

A informação confirma uma comunicação histórica entre os dois sistemas hídricos, mas não comprova que a Lagoa do Violão tenha se formado como antigo braço ou canal abandonado do Mampituba. Essa possibilidade permanece como hipótese relacionada à evolução geomorfológica da região.
No século XX, a drenagem foi profundamente modificada. Por volta de 1955, o antigo Departamento Nacional de Obras de Saneamento, o DNOS, implantou e retificou um canal que ficou conhecido popularmente como “valão”. Atualmente, permanece uma ligação hídrica superficial entre a lagoa e o Mampituba pelo curso associado à Avenida do Riacho.
A lagoa também aparece no relato do naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, que esteve em Torres em 1820 e registrou a presença de um lago que podia ser avistado da residência onde estava hospedado. Registros posteriores identificam esse corpo d’água como a atual Lagoa do Violão.
Até aproximadamente 1940, o nome Lagoa das Torres predominava entre moradores e aparecia em documentos e publicações. A denominação Lagoa do Violão passou a ganhar força a partir daquele período e duas versões explicam sua origem: o formato sinuoso, semelhante ao contorno de um violão, e uma das mais conhecidas lendas de Torres, a história de Ocarapoti.
A LENDA
Conta a tradição que um navio espanhol naufragou na Ilha dos Lobos e que um jovem marinheiro conseguiu chegar à praia utilizando o próprio violão como boia. Encontrado pela filha do cacique de uma comunidade indígena, Ocarapoti, cujo nome é associado ao significado de “Flor Silvestre”, ele foi levado à aldeia, onde recebeu cuidados.
Recuperado, passou a tocar e cantar para agradecer pela acolhida. O som do instrumento encantou os indígenas, que teriam passado a chamá-lo de Puiára, associado ao “dom do som” ou da música.
Ocarapoti apaixonou-se pelo marinheiro. A lenda, entretanto, incorpora elementos relacionados a práticas de canibalismo ritual e narra que a comunidade decidiu sacrificar o estrangeiro para, simbolicamente, incorporar seus dons.
Desesperada diante da morte do amado, Ocarapoti teria pegado o violão e corrido em direção à torre norte, o atual Morro do Farol. Abraçada ao instrumento, chorou até que suas lágrimas formassem a lagoa.
A história não é uma explicação geológica, mas uma narrativa de memória e identidade cultural. Provavelmente criada e estruturada entre as décadas de 1940 e 1950, tornou-se uma das lendas mais conhecidas de Torres.
Assim, a mesma lagoa pode ser compreendida por diferentes caminhos. Para a geologia, é resultado da evolução da costa; para os mapas, é um corpo d’água registrado há pelo menos dois séculos; para a tradição oral, nasceu das lágrimas de Ocarapoti; para os torrenses, é parte da própria identidade da cidade.
CIDADE NO ENTORNO
Hoje, a Lagoa do Violão recebe água das chuvas, da drenagem pluvial urbana e das águas subterrâneas. Há registros da presença de água subterrânea nas margens, indicando participação do lençol freático em sua dinâmica. Não foram identificadas evidências suficientes para caracterizar uma nascente pontual como fonte natural principal.
Uma contribuição hídrica passou a integrar esse sistema a partir das obras do empreendimento Vesta, no Centro de Torres. Segundo informações repassadas pelo empreendimento, durante o início das obras foi encontrada uma nascente de água límpida, direcionada à Lagoa do Violão por meio de uma tubulação vinculada ao sistema da Corsan. Conforme a informação, o volume encaminhado teria capacidade de promover, ao longo de um ano, uma renovação equivalente a quatro vezes o volume total da lagoa.
A chuva que cai sobre uma rua pode chegar à lagoa pela drenagem; sedimentos, matéria orgânica e resíduos também podem ser transportados. O que entra no corpo d’água passa a integrar uma dinâmica ambiental complexa. E é justamente a cidade que hoje representa uma das maiores pressões sobre esse ambiente.
A Secretaria Municipal de Meio Ambiente aponta a intensa urbanização e a ocupação do entorno como o principal desafio ambiental. Qualidade da água, assoreamento, erosão das margens, resíduos, espécies exóticas e ocupação urbana estão interligados.
A impermeabilização do solo altera o escoamento superficial e pode aumentar o transporte de sedimentos, matéria orgânica e outros materiais para a lagoa. A redução e fragmentação dos ambientes naturais também dificultam a regeneração da vegetação nativa e podem favorecer espécies exóticas.
A cidade cresceu ao redor da lagoa. Agora precisa aprender a conviver com o ambiente natural que ajudou a construir sua paisagem.
FAUNA E ÁGUA
Quem observa a Lagoa do Violão por mais tempo percebe que ela abriga uma vida que nem sempre aparece à primeira vista. Peixes, aves, tartarugas e cágados utilizam o espelho d’água e suas margens como abrigo, área de alimentação ou passagem.
Já foram realizados estudos relacionados à fauna e à qualidade da água, mas a Prefeitura reconhece a necessidade de atualizar essas informações. Atualmente, articula uma parceria com biólogos da Unisinos para desenvolver um projeto de ecologia cidadã especialmente voltado aos cágados.
A proposta está em fase de captação de recursos e pretende aproximar pesquisadores e comunidade, estimulando a observação e o registro dos animais para compreender sua ocorrência, distribuição e deslocamento.
O conhecimento também pode ajudar a enfrentar um dos conflitos mais concretos entre fauna e urbanização, os atropelamentos.
Segundo a Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo, há registros de atropelamento de animais no entorno da lagoa, muitos envolvendo espécies exóticas que apresentam populações numerosas. O problema envolve tanto questões ecológicas quanto de bem-estar animal. Por isso, o desafio não está simplesmente em proteger ou eliminar espécies, mas em compreender e manejar adequadamente essas populações.
Outro ponto que exige atenção é a qualidade da água. A Prefeitura já realizou acompanhamento relacionado ao pescado da lagoa, utilizando tilápias como elemento de avaliação. As análises indicaram que a carne dos peixes atendia aos padrões estabelecidos pelo Mercosul para pescado.
O resultado, porém, não equivale a um monitoramento sistemático da água. Uma análise de segurança do pescado não substitui avaliações físico-químicas e microbiológicas do corpo hídrico.
A própria administração reconhece a necessidade de retomar e fortalecer o monitoramento ambiental permanente, com parâmetros capazes de acompanhar a qualidade da água e suas alterações ao longo do tempo.
LIXO E REVITALIZAÇÃO

No entorno, os resíduos permanecem como outro ponto de atenção. Atualmente, não existe uma rotina permanente e específica de retirada de lixo da lagoa e de suas margens. As ações ocorrem de forma pontual, conforme a necessidade, além de campanhas ambientais e iniciativas promovidas pela Prefeitura e pela comunidade.
A fiscalização de descartes irregulares ocorre a partir de denúncias ou da identificação de situações pelas equipes municipais, com adoção das medidas administrativas cabíveis quando constatadas irregularidades.
A retirada do lixo, entretanto, é apenas uma parte da solução. Educação ambiental, prevenção, fiscalização e participação comunitária são necessárias para reduzir o descarte irregular.
Além do lixo, o entorno também passa por transformação física. Segundo o secretário de Planejamento e Participação Cidadã, Rubem Enedir Machado Silveira, duas etapas do projeto de revitalização já foram executadas. As intervenções incluíram passeios públicos em concreto armado, piso tátil, meio-fio, rampas de acessibilidade, ciclofaixas, faixas de pedestres, sinalização, lixeiras e mobiliário.

A terceira etapa prevê a conclusão do passeio público no mesmo padrão das áreas executadas, com acessibilidade e faixas de segurança. A ciclovia prevista nessa etapa já foi executada pela Secretaria de Obras, mas o passeio permanece pendente.
A quarta etapa prevê um deck-mirante em madeira, com vista para a lagoa. A quinta contempla a revitalização da ponte, incluindo guarda-corpo, piso e iluminação. As três etapas ainda não foram concluídas.
TURISMO COM LIMITES
A Lagoa do Violão também está no radar do turismo. O secretário municipal de Turismo, Gabriel de Mello, confirma que a Prefeitura está finalizando a licitação para retomar a exploração dos pedalinhos. A escolha, segundo ele, considera as condições atuais da lagoa. Atividades como stand up paddle apresentam riscos devido à presença de pontas de taquara, pedaços de madeira e outros objetos na água.
O pedalinho é considerado, neste momento, a alternativa mais segura. Mas o projeto turístico é mais amplo. Futuramente, a Prefeitura avalia a possibilidade de oferecer caiaques, stand up paddle, hydro bike e até um café flutuante.
Para isso, porém, há uma etapa anterior, o desassoreamento e a limpeza da lagoa. O secretário municipal de Meio Ambiente e Urbanismo, Douglas de Oliveira Gomes, aponta o principal obstáculo para o desassoreamento, os recursos financeiros. A Prefeitura pretende cadastrar a demanda junto ao Ministério do Meio Ambiente e buscar apoio por meio de emenda parlamentar.
O custo elevado, segundo o secretário Douglas, faz com que o desassoreamento seja hoje uma das principais limitações para ampliar o uso turístico. A administração municipal entende que turismo e preservação não são incompatíveis. Esportes náuticos de baixo impacto podem ser realizados, desde que não provoquem perturbação da fauna, danos às margens ou à vegetação, lançamento de resíduos ou outras interferências prejudiciais.
Qualquer exploração comercial também deverá seguir os procedimentos administrativos para autorização ou cessão de uso do espaço público. A ideia é permitir que a lagoa seja utilizada, sem transformá-la em um ambiente consumido pelo uso excessivo.
PRÓXIMO CAPÍTULO
Para a Prefeitura, três medidas são consideradas prioritárias para garantir a conservação da Lagoa do Violão, embora, até o momento, não tenha sido apresentado um cronograma para a implementação dessas ações.
A primeira é qualificar e recuperar ambientalmente o entorno, ampliando a vegetação nativa, recuperando áreas degradadas e realizando o manejo adequado das espécies exóticas.
A segunda é implantar um programa permanente de monitoramento ambiental, reunindo dados sobre água, fauna, vegetação e transformações no entorno. Nesse contexto, a atualização dos estudos e o projeto de ecologia cidadã dos cágados podem contribuir para formar uma base de informações capaz de orientar decisões futuras.
A terceira é ordenar o uso público e fortalecer a educação ambiental, conciliando turismo e lazer com conservação, reduzindo conflitos entre fauna e infraestrutura urbana e ampliando a fiscalização dos descartes.
A Lagoa do Violão é, ao mesmo tempo, patrimônio natural, espaço público, atração turística, abrigo de fauna, objeto de pesquisa e memória coletiva.
No centro de tudo isso está uma questão que ultrapassa a geologia, o meio ambiente, o turismo e a administração pública: que Lagoa do Violão Torres quer deixar para o futuro?
A resposta não estará apenas em uma obra, em um projeto de revitalização ou em uma nova atração turística. Será construída na maneira como a cidade decidirá conviver com o ambiente que existia antes dela.
Preservá-la significa reconhecer que desenvolvimento e conservação precisam caminhar juntos. Significa entender que o turismo só será sustentável se houver um ambiente capaz de suportá-lo e que a preservação só será efetiva se a população puder compreender, conhecer e participar desse processo.
Agora, é a cidade que precisa escrever o próximo capítulo.