Home Especial“Ele era o príncipe. Depois, começou a controlar meu horário”, a história de uma sobrevivente que decidiu falar para outras mulheres

“Ele era o príncipe. Depois, começou a controlar meu horário”, a história de uma sobrevivente que decidiu falar para outras mulheres

por Melissa Maciel

Ciúme não é prova de amor. Controle não é cuidado. E uma mulher não precisa esperar a primeira agressão física para reconhecer que está em uma relação abusiva.

“Eu passei 20 dias no ‘love bombing’. Literalmente, foram 20 dias. Era o príncipe, o rei. Abria a porta, era gentil, educado. Ele dormia comigo, não me forçava a nada. Ele nem tocava.”

É assim que Michele Selliach Duarte começa a reconstruir a história de um relacionamento que, segundo ela, rapidamente deixou de ser o sonho que parecia ser. Os primeiros sinais não chegaram acompanhados de gritos ou marcas no corpo. Vieram disfarçados de cuidado.

CONTROLE DISFARÇADO

O horário de saída da escola onde ela lecionava como professora de Educação Física precisava ser cumprido rigorosamente. Ele a levava e buscava. Vieram as ligações incessantes, as chamadas de vídeo e a exigência de fotografias para provar onde ela estava. O que inicialmente parecia atenção começou a ocupar o espaço da liberdade.

Michele conta que o primeiro sinal de violência física também foi minimizado por ela. Durante uma crise de ciúmes, ele a empurrou para fora de um carro, em frente ao prédio onde ela morava. Depois, veio o pedido de desculpas. Ele chorou. Pediu perdão. Prometeu mudar.

O AMOR IDEALIZADO

A história de Michele ajuda a revelar uma das armadilhas mais difíceis de reconhecer nos relacionamentos abusivos: a violência não necessariamente começa com uma agressão. Muitas vezes, ela começa com pequenas concessões.

O telefone passa a ser fiscalizado. As amizades começam a incomodar. A roupa deixa de ser uma escolha pessoal. A rotina passa a precisar de autorização. A mulher começa a explicar onde está, com quem está, por que falou com determinada pessoa.

No caso de Michele, ela conta que apagou amigos das redes sociais, inclusive pessoas que conhecia havia décadas. Deixou de falar com a própria mãe. Precisou modificar roupas, apagar fotografias antigas e se afastar de atividades e pessoas importantes. “Vai submetendo para minimizar os conflitos, achando que vai cessar.” Não cessou.

QUANDO TUDO MUDA

A psicóloga Vânia Gisleine Schmitz, do Centro de Referência da Mulher Priscila Selau, explica que os primeiros sinais podem ser difíceis de perceber justamente porque aparecem em uma fase em que a mulher está envolvida emocionalmente.

Segundo ela, potenciais agressores podem se apresentar inicialmente como pessoas extremamente gentis e atenciosas. Por isso, é importante observar comportamentos cotidianos, inclusive manifestações de machismo, comentários depreciativos sobre outras mulheres e falas recorrentes de que uma ex-companheira seria “louca”.

Entre os sinais mais evidentes estão o ciúme exagerado e o controle. Sob o argumento de proteção ou segurança, o parceiro começa a monitorar os passos da mulher, controlar suas decisões e interferir em suas relações.

O problema é que o ciúme ainda é frequentemente romantizado. Foi o que aconteceu com Michele. “Eu achava bonito o ciúme excessivo dele. Parecia que eu estava sendo amada.”

Com o tempo, porém, aquilo que parecia demonstração de amor tornou-se vigilância. O telefone precisava estar por perto. As mensagens eram questionadas. As redes sociais eram monitoradas. A ausência de uma resposta imediata podia provocar novas cobranças.

Até que a violência passou a fazer parte da rotina. Michele relata ter sofrido agressões físicas, psicológicas e sexuais. Conta que chegou a ser espancada, com socos e chutes, e que em determinado momento acreditou que morreria.

“Eu fiquei destruída. Ele chegou já me batendo. Eu revidei. E começou a me dar soco, chute. Tudo que possa imaginar.” As marcas, porém, não estavam apenas no corpo. Ela percebeu que estava desaparecendo de si mesma.

Na escola, onde era conhecida por ser comunicativa e estar sempre próxima de colegas e educadores, passou a ficar calada. Andava de cabeça baixa. Media as palavras. Escondia o telefone para conseguir trabalhar. Entrava no banheiro para fazer chamadas de vídeo e responder às cobranças.

Colegas perceberam. A família percebeu. Ela, durante muito tempo, não conseguia compreender completamente o que estava acontecendo. “Eu apaguei. Do nada, assim, eu apaguei.”

POR QUE NÃO SAIU?

Essa talvez seja uma das perguntas que mais machucam mulheres que vivem violência: “Por que você não saiu?” A resposta não é simples.

E, segundo a psicóloga Vânia, não existe uma única razão capaz de explicar por que uma mulher permanece em um relacionamento violento. Dependência financeira, dependência emocional, medo, ameaças, preocupação com os filhos e receio de exposição são alguns dos fatores.

Há também o chamado desamparo aprendido. Depois de repetidas tentativas frustradas de mudar uma situação, a vítima pode passar a acreditar que não conseguirá escapar ou que nada irá mudar. É nesse terreno que o ciclo da violência se fortalece.

Primeiro, cresce a tensão: aparecem discussões, ameaças, ciúmes, controle e humilhações. Depois, ocorre a explosão, que pode envolver violência física, sexual, verbal, psicológica ou patrimonial. Em seguida, vem a chamada “lua de mel”: pedidos de desculpas, carinho, promessas de mudança.

E, por algum tempo, tudo parece bem. Até começar novamente. Michele conhece esse ciclo. “Eles batem, pedem desculpa. Tem o amor, tem a recompensa. Bate de novo. Tem o amor.”

Foi também por isso que ela saiu e voltou mais de uma vez. E é justamente nesse ponto que a sociedade precisa abandonar o julgamento. Perguntar “por que ela voltou?” pode ser mais fácil do que tentar compreender o que a mantém naquele lugar. Mas a pergunta que realmente importa é outra. O que essa mulher precisa para conseguir sair com segurança?

CAMINHO ACOMPANHADO

Michele começou a ser acompanhada pelo Centro de Referência da Mulher (CRM), após acessar a Rede Lilás, em Torres. O acompanhamento psicológico foi fundamental para que ela compreendesse a própria trajetória, reconhecesse os efeitos da violência e começasse a reconstruir a confiança.

O processo começou antes mesmo de Michele se sentir preparada para tornar pública a experiência. “Eu estou desde outubro de 2025 querendo falar disso. A psicóloga Vânia, que me atende no CRM. A gente está trabalhando nisso desde outubro. E eu não estava pronta.”

A psicóloga explica que o CRM atende mulheres que procuram espontaneamente o serviço ou que chegam encaminhadas por outros órgãos da rede de proteção. O atendimento não depende, necessariamente, da existência de um boletim de ocorrência.

Quando há medida protetiva deferida pelo Poder Judiciário, o CRM também pode receber a comunicação e entrar em contato com a mulher para oferecer acompanhamento psicossocial.

Isso significa que pedir ajuda não exige, necessariamente, uma exposição pública, como a que Michele decidiu fazer nas redes sociais. O primeiro passo pode ser uma conversa, o relato a uma profissional de confiança ou a procura por um serviço da rede.

Pode começar, simplesmente, com uma frase: “Eu não sei se isso é violência, mas alguma coisa está errada.”

ROMPER COM SEGURANÇA

Romper um relacionamento abusivo não significa, necessariamente, que a violência terminou. Para muitas mulheres, a separação pode ser justamente uma fase de maior vulnerabilidade. Por isso, esse processo precisa, sempre que possível, ser acompanhado por uma rede capaz de oferecer segurança, orientação e acolhimento.

Nesse caminho, a Patrulha Maria da Penha tem papel fundamental. O serviço da Brigada Militar integra a rede de enfrentamento à violência contra a mulher e atua não apenas diante de ocorrências, mas também no acompanhamento, na orientação e no fortalecimento da confiança das mulheres atendidas.

Para a soldado Cimara Carpes Obenglindler, que atua na Patrulha Maria da Penha responsável pelo atendimento em Torres e Arroio do Sal, cada caso tem uma história própria, mas sentimentos como medo, insegurança, culpa e dificuldade de romper com o agressor aparecem com frequência.

Ela explica que o rompimento raramente acontece de uma única vez. Algumas mulheres deixam a casa, retornam, registram uma ocorrência, interrompem ou retomam medidas de proteção e voltam a procurar ajuda. Esse movimento não deve ser confundido com falta de coragem ou decisão, mas compreendido como parte de um processo complexo de rompimento do ciclo da violência.

A Patrulha acompanha esse percurso, orientando sobre direitos, mecanismos de proteção e a importância de comunicar novas ameaças ou eventual descumprimento de medidas judiciais. O trabalho também reforça que controle, humilhação, ameaças e agressões não são demonstrações de amor ou cuidado.

Quando decide sair, portanto, a mulher não está apenas encerrando um relacionamento. Muitas vezes, está tentando recuperar uma vida que foi progressivamente limitada.

Por isso, a orientação é que esse processo não seja enfrentado sozinha. Centro de Referência da Mulher, assistência social, atendimento psicológico, Polícia Civil, Brigada Militar, Patrulha Maria da Penha, Ministério Público, Poder Judiciário e os demais serviços da rede cumprem funções distintas, mas complementares.

Cada porta procurada pode ser um passo em direção à próxima. Para Michele, compreender a importância dessa rede também fez parte da reconstrução. Durante muito tempo, acreditou que precisava resolver sozinha uma situação que havia ultrapassado os limites de um relacionamento difícil. Hoje, sabe que pedir ajuda não significa fraqueza. Significa proteção.

E, sobretudo, significa não esperar que a violência se agrave para reconhecer que algo está errado.

“EU NÃO TENHO MAIS MEDO”

Depois de meses tentando compreender o que havia vivido, Michele decidiu falar publicamente. Não começou pelos detalhes da própria história, mas pelos sinais da violência doméstica. Em suas redes sociais, passou a falar sobre controle, isolamento e comportamentos que muitas vezes são naturalizados antes que a agressão aconteça.

A repercussão fez com que outras mulheres a procurassem. Entre elas, a irmã do agressor, que decidiu transformar a indignação em uma luta por justiça e reparação. Em 12 de julho, ela criou no Instagram o perfil @verdade_seja_dita, que atualmente reúne mais de 47 mil seguidores.

A partir da repercussão do perfil e da história de Michele, segundo os relatos reunidos pelas envolvidas, 18 mulheres afirmaram ter sido vítimas do mesmo homem denunciado por ela. Atualmente, a Polícia Civil mantém cinco inquéritos abertos envolvendo denúncias contra o homem por situações de violência vivenciadas ao longo dos últimos 30 anos. Conforme Michele, os relatos apresentam semelhanças no padrão de comportamento atribuído a ele.

Foi nesse momento que Michele percebeu que sua experiência poderia ultrapassar a própria história e servir de alerta para outras mulheres. O que antes era marcado pelo medo passou a ganhar outro significado: ajudar outras pessoas a reconhecerem sinais que ela mesma demorou a identificar.

Tornar pública essa história, porém, não foi simples. Michele conta que teve medo de ameaças, julgamentos e das consequências pessoais e profissionais de expor uma experiência tão dolorosa. Mas encontrou uma razão maior para falar: a possibilidade de ajudar outras mulheres.

Hoje, Michele fala das próprias marcas sem a vergonha que sentia antes. Ainda lida com consequências emocionais da violência e reconhece dificuldades para confiar, estabelecer vínculos e imaginar um novo relacionamento. O acompanhamento psicológico continua sendo parte desse processo.

A reconstrução não acontece de um dia para o outro. É feita aos poucos, entre memórias, medos e novas escolhas. Mas acontece.

NEM TUDO DEIXA MARCAS

Talvez a principal mensagem da história de Michele não esteja na agressão mais grave, mas em tudo o que aconteceu antes dela: no primeiro controle, na ligação que exigia resposta imediata, na senha do telefone cobrada, na amizade que precisou ser encerrada, na roupa que deixou de poder usar, no trabalho que passou a incomodar e na família que foi afastada.

Também estava no medo de contrariar, na necessidade de medir cada palavra para evitar uma reação e nos pedidos de desculpas acompanhados da promessa de que “nunca mais aconteceria”.

Violência não precisa deixar marcas no corpo para existir. E nenhuma mulher precisa esperar que a situação chegue ao extremo para procurar ajuda.

Michele demorou a reconhecer os sinais. Hoje, consegue enxergar a sequência que marcou aquele relacionamento: o encanto, o controle, o isolamento, a violência, o medo e as tentativas de sair, até encontrar forças para romper.

“Eu tirei a força do medo que eu tinha. Do pavor que eu tinha de morrer. E da vontade de viver.”

É nesse ponto que sua história muda de direção. A mulher que antes escondia as marcas hoje fala sobre elas. E aquela que um dia teve medo de sair agora usa a própria experiência para ajudar outras mulheres a reconhecerem os sinais e buscarem uma saída.

A sobrevivente transformou a própria história em um alerta: Será que você, ou alguma mulher próxima, está chamando de amor aquilo que já virou controle? Se a resposta for sim, não espere a próxima agressão para procurar ajuda. Você não precisa enfrentar isso sozinha. Ligue 180, 190 ou contate o CRM Priscila Selau pelo WhatsApp (51) 9456-1977.

FOTO: JULIANA TAMAKI

FOTO: ARQUIVO PESSOAL