Reportagem do Jornal do Mar revisita os quatro patrimônios históricos destacados em março de 2025 e mostra os avanços, os entraves e o que ainda falta para que esses espaços voltem a fazer parte da vida da comunidade.
Em março de 2025, o Jornal do Mar publicou uma reportagem especial alertando para a situação de quatro dos mais importantes patrimônios históricos de Torres. Na época, Casa do Alferes, Torreão dos Guarda-Vidas, Museu Municipal e antiga Escola Cenecista compartilhavam uma mesma realidade: abandono, degradação e incertezas sobre o futuro. Embora cada um tenha uma trajetória diferente, todos representam capítulos fundamentais da formação da cidade e carregam um potencial ainda pouco explorado para fortalecer a cultura, o turismo e a educação patrimonial.
Passados pouco mais de 16 meses, o cenário começa a apresentar mudanças. Em alguns casos, as perspectivas evoluíram para ações concretas; em outros, os projetos permanecem no papel, aguardando definições técnicas, jurídicas ou financeiras. O levantamento realizado pelo Jornal do Mar mostra que a preservação do patrimônio histórico voltou à pauta do poder público, mas evidencia que a recuperação desses espaços continua sendo um processo longo e que exige planejamento, investimentos e continuidade administrativa.
Enquanto o Torreão dos Guarda-Vidas recebeu um importante impulso com a assinatura de um acordo judicial para garantir sua restauração, a antiga Escola Cenecista passou por ações preventivas de conservação. Já o Museu Municipal e a Casa do Alferes seguem aguardando definições que permitam transformar projetos em realidade.
CASA DO ALFERES: O PATRIMÔNIO MAIS ANTIGO CONTINUA À ESPERA DE DEFINIÇÃO
Poucos imóveis possuem uma ligação tão direta com as origens de Torres quanto a Casa do Alferes, conhecida também como Casa Nº 1. Construída no início do século XIX pelo Alferes Manoel Ferreira Porto, chefe da Guarda das Torres, a residência antecede a própria formação do núcleo urbano e até mesmo a construção da Igreja São Domingos.
A edificação preserva técnicas construtivas típicas da época, como paredes erguidas com pedras irregulares unidas por argamassa produzida com barro, conchas e cal extraída de sambaquis. Ao longo dos anos, o imóvel recebeu ampliações que incorporaram elementos da arquitetura luso-brasileira e, posteriormente, características que marcaram o desenvolvimento urbano da cidade.
Quando a reportagem foi publicada, em março de 2025, a situação do imóvel era marcada principalmente pelo impasse judicial envolvendo sua propriedade. Na ocasião, a Secretaria Municipal da Cultura e do Esporte informava que o futuro da edificação dependeria do desfecho da disputa entre particulares, enquanto o Município assumia a guarda e a manutenção do prédio por determinação judicial.
Mais de um ano depois, esse cenário permanece praticamente inalterado. A Prefeitura de Torres foi procurada pelo Jornal do Mar para informar se houve avanços no processo judicial, novos projetos de restauração ou definições sobre a futura utilização do imóvel. Entretanto, até o fechamento desta reportagem, não houve retorno da Administração Municipal.
A ausência de atualizações mantém a Casa do Alferes em uma condição de espera. Embora reconhecida como um dos principais símbolos da fundação de Torres, sua utilização como espaço cultural, educativo ou turístico continua condicionada à resolução da questão jurídica envolvendo a propriedade.
TORREÃO DOS GUARDA-VIDAS: DO PROJETO À RESTAURAÇÃO COM PRAZO DEFINIDO
Entre os quatro patrimônios abordados na reportagem de 2025, o Torreão dos Guarda-Vidas é o que apresenta a evolução mais significativa.
Construído em 1953 na Praia Grande, o monumento tornou-se um dos cartões-postais de Torres e um símbolo da história do veraneio gaúcho. Projetado dentro dos princípios do movimento modernista, destaca-se pelas formas curvas, pelas lajes em balanço e pela utilização inovadora do concreto armado para a época.
No ano passado, a expectativa era de que a Prefeitura desenvolvesse um projeto de restauração capaz de recuperar as características originais da construção e permitir sua utilização como espaço voltado à educação patrimonial e à visitação turística.
A partir de então, o cenário avançou de forma concreta. Em junho deste ano, o Ministério Público do Rio Grande do Sul firmou um acordo extrajudicial com uma construtora e o Município de Torres para viabilizar a restauração integral do prédio histórico.
O termo estabelece prazo máximo de 12 meses, contados a partir da homologação judicial, para a conclusão das obras. A proposta prevê a recuperação estrutural completa do Torreão, permitindo que o espaço seja devolvido à comunidade como patrimônio histórico e turístico da cidade.
Pelo acordo, a construtora assumirá investimento de R$ 137,3 mil, enquanto o Município será responsável por complementar os recursos necessários utilizando medidas compensatórias de natureza extraorçamentária.
Segundo a promotora de Justiça Dinamárcia Maciel de Oliveira, que conduziu as negociações, a iniciativa representa uma solução que atende ao interesse público ao transformar uma medida compensatória em benefício direto para a preservação de um dos maiores símbolos históricos da orla de Torres.
A expectativa agora depende apenas da homologação judicial para que os trabalhos sejam iniciados oficialmente, representando o primeiro cronograma concreto de recuperação anunciado para o monumento desde que a necessidade de restauração passou a ser discutida.
MUSEU MUNICIPAL: PROJETO PERMANECE, MAS OBRAS AINDA AGUARDAM DEFINIÇÃO
Outro patrimônio acompanhado pelo Jornal do Mar é o prédio que abriga o Museu Municipal de Torres. Construído em 1951 para sediar a Prefeitura, o edifício tornou-se uma das construções mais emblemáticas da cidade, reunindo características da arquitetura eclética com influências do Art Déco e do Neoclassicismo.
Além de ter sido o centro administrativo do município por mais de seis décadas, o imóvel também abrigou a Câmara de Vereadores e testemunhou decisões importantes para o desenvolvimento de Torres. Sua localização privilegiada, às margens da Lagoa do Violão, faz dele um dos cartões-postais do centro da cidade.
Quando a reportagem especial foi publicada, em março de 2025, o prédio encontrava-se interditado devido a problemas estruturais, como infestação de cupins e risco de comprometimento dos forros. Naquele momento, a Prefeitura havia iniciado medidas emergenciais de proteção, como a instalação de sistema de alarme e o fechamento das aberturas, enquanto elaborava um projeto de restauro.
A proposta apresentada pela Secretaria Municipal da Cultura e do Esporte era transformar o espaço em um moderno Centro Cultural. O projeto previa um museu renovado, biblioteca pública, salas multiuso para atividades culturais e a concessão do pavimento térreo para instalação de um café com vista para a Lagoa do Violão, integrando preservação histórica e sustentabilidade econômica.
Passado mais de um ano, a reportagem procurou novamente a Prefeitura de Torres para saber em que estágio se encontram o projeto executivo, a busca por recursos e a previsão para início das obras. Contudo, até o fechamento desta edição, a Administração Municipal não respondeu aos questionamentos.
Sem novas informações oficiais, permanece a expectativa da comunidade em torno da revitalização de um prédio que representa parte importante da memória política, administrativa e cultural do município. Enquanto aguarda investimentos, o edifício segue preservado apenas pelas medidas preventivas adotadas para evitar sua deterioração.
ANTIGA ESCOLA CENECISTA: CONSERVAÇÃO MARCA NOVA ETAPA DE PRESERVAÇÃO
Entre os patrimônios históricos destacados pelo Jornal do Mar em 2025, a antiga Escola Cenecista foi a que apresentou as ações mais visíveis de conservação ao longo deste ano.
Construída originalmente no final da década de 1930, a edificação nasceu para funcionar como colégio elementar e, durante o verão, servir como colônia de férias escolar. Seu projeto arquitetônico inspirou-se no conceito das “Prairie Houses”, desenvolvido pelo arquiteto norte-americano Frank Lloyd Wright, privilegiando integração com a paisagem e grandes marquises horizontais.
Ao longo das décadas, entretanto, o prédio sofreu sucessivas modificações que alteraram significativamente suas características originais. Ainda assim, sua importância ultrapassa o valor arquitetônico. A antiga escola tornou-se um dos espaços mais afetivos da história de Torres, reunindo lembranças de milhares de estudantes e moradores que frequentaram o local, seja durante o período escolar, seja quando o prédio passou a receber eventos, festas e atividades culturais.
Na reportagem publicada em março de 2025, a Prefeitura informava que havia fechado as aberturas para evitar invasões e atos de vandalismo. Também estava prevista a contratação de estudos arqueológicos para investigar possíveis vestígios de antigas fortificações existentes na área, etapa considerada essencial antes da definição sobre futuras intervenções.
Agora, em 2026, a Administração Municipal deu mais um passo na preservação do imóvel ao promover uma ação integrada de limpeza e conservação.
Os trabalhos reuniram equipes das secretarias municipais de Meio Ambiente e Urbanismo, Obras e Serviços Públicos e Cultura e do Esporte. Durante a operação foram realizados serviços de limpeza geral, retirada de resíduos, recolhimento de materiais descartados irregularmente e organização da área externa, melhorando as condições de conservação do patrimônio.
O secretário de Cultura e do Esporte, Gilberto Beier, acompanhou os trabalhos, que fazem parte das ações permanentes de manutenção dos espaços públicos e preservação do patrimônio histórico desenvolvidas pela Prefeitura.
Embora a iniciativa não represente ainda a revitalização definitiva do prédio, ela demonstra uma mudança importante em relação ao cenário retratado no ano passado. Se antes a principal preocupação era impedir a deterioração do imóvel, agora o município passa a realizar intervenções periódicas de conservação, buscando preservar a estrutura enquanto aguarda etapas mais amplas de recuperação.
Apesar disso, ainda não há confirmação sobre a realização das pesquisas arqueológicas, tampouco sobre a abertura da concessão pública prevista anteriormente para permitir que a iniciativa privada realize as obras de revitalização e utilize o espaço comercialmente.
PATRIMÔNIO HISTÓRICO: PRESERVAR O PASSADO PARA CONSTRUIR O FUTURO
Em pouco mais de um ano, Torres registrou pequenos avanços na preservação de parte de seu patrimônio histórico, especialmente com o acordo para a restauração do Torreão dos Guarda-Vidas e as ações de conservação na antiga Escola Cenecista. Por outro lado, a Casa do Alferes e o Museu Municipal seguem aguardando definições que permitam a execução de projetos de revitalização.
A Prefeitura de Torres foi procurada pelo Jornal do Mar para atualizar as informações sobre esses dois imóveis, mas não se manifestou até o fechamento desta reportagem.
Mais do que construções antigas, esses espaços representam diferentes momentos da história do município e ajudam a preservar a identidade da cidade. A recuperação desses patrimônios pode fortalecer a cultura, impulsionar o turismo e valorizar a memória coletiva.
Embora ainda existam desafios, os primeiros avanços indicam que a preservação do patrimônio histórico voltou à pauta. Agora, o principal desafio é garantir a continuidade das ações para que esses espaços deixem de representar apenas o passado e passem a integrar o futuro de Torres.
FOTOS: JULIANA TAMAKI/GRUPO MARISTELA