Home Especial“Ele veio morar entre nós!” A casa que falta, a fé que convoca e o direito que não pode esperar

“Ele veio morar entre nós!” A casa que falta, a fé que convoca e o direito que não pode esperar

por Melissa Maciel

Campanha da Fraternidade 2026 destaca o déficit habitacional, a exclusão urbana e o dever coletivo de garantir moradia digna como base da vida e da cidadania.

Homeless Christ (Cristo sem-teto), escultura de bronze de Timothy Schmalz, que retrata Jesus como um sem-teto, dormindo em um banco de parque instalado no bairro de Trastevere, em Roma, na Itália

No Litoral Norte do Rio Grande do Sul, o contraste é evidente. De um lado, condomínios verticais, empreendimentos de alto padrão e a valorização constante do metro quadrado impulsionada pelo turismo e pela oferta imobiliária. De outro, casas improvisadas, ocupações em áreas de risco, famílias submetidas a aluguéis abusivos e pessoas que já não têm sequer um endereço fixo. É nesse cenário de desigualdade silenciosa que a Campanha da Fraternidade 2026 irrompe como provocação ética, social e espiritual.

Com o tema Fraternidade e Moradia e o lema bíblico “Ele veio morar entre nós”, a campanha foi lançada na Diocese de Osório na Quarta-feira de Cinzas (18), marcando o início da Quaresma com um chamado que vai além da liturgia. Olhar para a moradia como direito humano fundamental e não como privilégio de mercado. Mais do que uma reflexão pontual, a proposta é reposicionar o debate sobre habitação no centro da vida social brasileira.

CONVERSÃO SOCIAL

Ao contextualizar o sentido da Campanha da Fraternidade, o bispo da Diocese de Osório, Dom Jaime Pedro Kohl recordou que a iniciativa, criada na década de 1960, nasceu com o propósito de aproximar a fé cristã das necessidades concretas da sociedade. “A fraternidade nos chama a sair do individualismo e a reconhecer que pertencemos uns aos outros”, afirmou, ao destacar que a campanha se insere no tempo quaresmal justamente para provocar conversão pessoal e estrutural.

A Quaresma, tradicionalmente marcada pelo jejum, pela oração e pela caridade, ganha contornos sociais quando o tema da moradia é colocado em evidência. A proposta da Igreja é clara, não há espiritualidade autêntica que ignore as condições materiais em que a vida acontece. A casa, nesse sentido, deixa de ser apenas um bem privado e passa a ser compreendida como condição de dignidade, pertencimento e proteção.

UM DIREITO BÁSICO NEGADO A MILHÕES

A Campanha da Fraternidade 2026 apresenta um diagnóstico firme sobre a realidade habitacional brasileira e evidencia que a moradia segue como uma das maiores dívidas sociais do país. Com base no Texto-Base da CF2026, a Igreja Católica chama atenção para um problema estrutural que compromete o acesso a direitos fundamentais.

Dados da Fundação João Pinheiro, a partir da PNAD Contínua 2022 e do Cadastro Único, indicam que o déficit habitacional no Brasil chega a 6,2 milhões de domicílios, resultado sobretudo da coabitação forçada, de moradias precárias, do ônus excessivo com aluguel e do adensamento excessivo. Quase metade desse déficit está ligada ao alto custo do aluguel, que consome parcela desproporcional da renda familiar.

Outro aspecto crítico é a inadequação das moradias. Cerca de 26 milhões de domicílios urbanos vivem sem condições mínimas de dignidade, com problemas como ausência de saneamento, falta de água regular, precariedade construtiva e insegurança fundiária. São situações que exigem investimentos urgentes, ainda que não demandem reconstrução total.

A professora de História e Geografia e integrante das Pastorais Sociais da Diocese de Osório, Sônia Dalmar, ressalta o caráter estrutural do problema. “O solo urbano é tratado como ativo financeiro. Quem não consegue pagar é empurrado para as margens, para áreas sem infraestrutura, longe do trabalho, da escola e dos serviços públicos”, analisa.

Segundo ela, no Rio Grande do Sul, a exclusão é agravada por processos históricos de ocupação desigual do território, enquanto no Litoral Norte o avanço do mercado imobiliário intensifica esse cenário. O resultado é um ciclo de precarização que atravessa gerações e transforma a moradia em mercadoria, esvaziando seu sentido social. A casa deixa de ser espaço de cuidado e estabilidade para representar insegurança e medo constante de remoção.

A CIDADE QUE EXCLUI TAMBÉM ADOECE

A falta de moradia digna produz impactos que vão muito além da questão habitacional. Seus efeitos atingem diretamente a educação, a saúde e a vida comunitária. Crianças submetidas a constantes mudanças de endereço enfrentam dificuldades para manter vínculos escolares. Famílias que vivem sem saneamento básico estão mais expostas a doenças. Já trabalhadores que residem longe do emprego perdem tempo e renda em longos deslocamentos, com prejuízo direto à qualidade de vida.

O defensor público da Comarca de Torres, Rodrigo Noschang, reforça que o direito à moradia é um direito social fundamental, assegurado pelo artigo 6º da Constituição Federal. “Não se trata apenas da casa física. Moradia digna envolve acesso a serviços essenciais e proteção contra despejos arbitrários. É a base para que outros direitos possam ser efetivados”, afirma.

Segundo ele, embora a legislação seja clara, a efetivação desse direito depende de políticas públicas consistentes e contínuas. Programas habitacionais, regularização fundiária, melhorias habitacionais e planejamento urbano inclusivo são instrumentos indispensáveis, mas ainda insuficientes diante da dimensão do problema habitacional no país.

POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA

Uma das expressões mais extremas da negação do direito à moradia é a população em situação de rua. O Brasil já registra mais de 300 mil pessoas vivendo sem abrigo, expostas à violência, às intempéries e à invisibilidade social, cenário que evidencia a fragilidade das políticas de proteção social e impõe desafios permanentes ao poder público.

O perfil dessa população revela desigualdades estruturais: predominam homens, pessoas negras e adultos em idade produtiva, concentrados principalmente em grandes centros urbanos. Ao contrário do estigma, a maioria exerce atividades informais, sem proteção social e com renda insuficiente para superar a vulnerabilidade.

Para Noschang, o enfrentamento dessa realidade exige ações integradas entre habitação, assistência social, saúde mental e geração de renda. “Não é apenas uma questão de falta de casa, mas de rompimento de vínculos e ausência de políticas que garantam reinserção social”, afirma.

UM CHAMADO À RESPONSABILIDADE COLETIVA

Ao iluminar a questão da moradia à luz da Palavra de Deus, a Campanha da Fraternidade resgata o sentido bíblico da casa como espaço de vida, acolhida e salvação. O lema “Ele veio morar entre nós” remete à encarnação de Jesus, que nasce em condição de vulnerabilidade e faz das casas simples lugar de encontro e proximidade com as pessoas.

A Doutrina Social da Igreja afirma princípios como a dignidade da pessoa humana, a destinação universal dos bens e a opção preferencial pelos pobres, que, no contexto habitacional, questionam a concentração da terra urbana, a especulação imobiliária e a indiferença diante da miséria.

Mais do que denunciar, a Campanha da Fraternidade 2026 aponta um caminho: refletir sobre desigualdades naturalizadas, conhecer os dados que revelam a exclusão e agir para transformar estruturas injustas, promovendo políticas públicas que coloquem a vida no centro.

Ao trazer a moradia para o coração da Quaresma, a Igreja convoca a sociedade a reconhecer que a casa não é um favor, mas um direito, condição essencial para a construção de uma sociedade verdadeiramente fraterna, justa e humana.