Mortes por afogamento, números expressivos de resgates e a redução do efetivo revelam um cenário de alerta nas praias do Rio Grande do Sul durante a Operação Verão 2025/2026
O verão transforma o Litoral Norte do Rio Grande do Sul em um dos principais destinos turísticos do Estado. Milhares de pessoas buscam nas praias descanso, lazer e contato com o mar. Por trás desse cenário de sol e calor, porém, existe uma engrenagem que precisa funcionar com precisão para evitar tragédias. A Operação Verão 2025/2026, conduzida pelo Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul, já contabiliza números expressivos de salvamentos e ações preventivas, mas também revela um problema antigo e cada vez mais evidente: a insuficiência de efetivo de guarda-vidas. Em Torres, um dos principais balneários gaúchos, três mortes por afogamento em menos de dez dias acenderam o alerta e colocaram o tema novamente no centro do debate público.
Os dados oficiais, aliados aos relatos de quem atua diariamente na linha de frente, mostram que muitas dessas mortes poderiam ser evitadas com maior presença de profissionais nas guaritas, melhor gestão de recursos humanos e decisões mais ágeis por parte do poder público. Esta reportagem especial do Jornal do Mar analisa os números da temporada, relembra as ocorrências recentes, traz o posicionamento da Associação dos Salva-vidas Militares do Estado e aponta os desafios enfrentados por quem tem a missão de proteger vidas no mar.
OS NÚMEROS DA OPERAÇÃO VERÃO 2025/2026
O balanço parcial da Operação Verão 2025/2026, divulgado até o dia 29 de dezembro, revela a intensidade do trabalho realizado pelos guarda-vidas no litoral gaúcho. De acordo com o Corpo de Bombeiros Militar, foram registrados 81 resgates e salvamentos em diferentes praias do Estado. Ao todo, 180 pessoas foram encontradas em situações de risco, muitas delas já em processo de afogamento.
Além dos salvamentos, chama a atenção o volume de ações preventivas. Somente neste início de temporada, foram contabilizadas 77.044 intervenções de prevenção, que incluem orientações diretas aos banhistas, apitos, advertências verbais e deslocamentos para retirada de pessoas de áreas perigosas. Esses números reforçam o papel do guarda-vidas não apenas como socorrista, mas como agente fundamental de prevenção.
Outro dado relevante é o registro de 17.145 lesões causadas por águas-vivas. Embora não sejam, na maioria dos casos, ocorrências fatais, elas exigem atendimento constante e consomem tempo e recursos das equipes, que precisam dividir a atenção entre atendimentos clínicos, ações educativas e vigilância do mar.
SALVAMENTOS QUE NÃO VIRAM ESTATÍSTICA DE MORTE
Por trás de cada número divulgado oficialmente, existem histórias de pessoas que voltaram para casa graças à intervenção rápida dos guarda-vidas. Em muitos casos, o resgate acontece em segundos decisivos, quando correntes de retorno surpreendem banhistas despreparados ou quando o cansaço impede o retorno à areia.
A atuação integrada, com apoio de motos aquáticas, quadriciclos e, em situações mais graves, do helicóptero do Corpo de Bombeiros, tem sido determinante para evitar um número ainda maior de óbitos. O próprio balanço da Operação Verão indica que, sem as ações preventivas e os resgates realizados, o cenário poderia ser muito mais trágico.
Ainda assim, os profissionais alertam que a eficiência do salvamento está diretamente ligada à proximidade do posto de guarda-vidas. Quanto maior a distância entre a ocorrência e a guarita ativa, maior o tempo de resposta e, consequentemente, maior o risco de morte.
TRÊS MORTES EM MENOS DE DEZ DIAS EM TORRES
Apesar dos esforços, o litoral gaúcho voltou a registrar mortes por afogamento neste início de temporada. Em Torres, três óbitos em menos de dez dias chamaram a atenção da comunidade e motivaram um alerta público da Associação dos Salva-vidas Militares do Estado (Asavime).
O caso mais recente ocorreu na praia Paraíso. Um jovem de 23 anos desapareceu no mar no início da noite de quarta-feira, dia 24, e teve o corpo localizado na madrugada de quinta-feira, dia 25. Segundo o Corpo de Bombeiros Militar, ele entrou no mar a cerca de 400 metros da guarita 22, que estava ativada. As buscas mobilizaram 14 guarda-vidas e duas motos aquáticas, evidenciando a complexidade da operação mesmo em um local com estrutura disponível.
Antes disso, outras duas mortes já haviam sido registradas na Praia Grande, nas proximidades da guarita 4, que não estava em funcionamento permanente. No dia 13 de dezembro, Kaique de Oliveira, de 21 anos, morador de Vacaria, se afogou e morreu três dias depois no hospital. Já em 21 de dezembro, Manoel de Freitas Ferreira, de 26 anos, também perdeu a vida após se afogar. Apesar do resgate rápido, com apoio de moto aquática, ele não resistiu.
Para a Asavime, essas ocorrências não podem ser tratadas como fatalidades isoladas, mas como reflexo direto da falta de efetivo e da ausência de guaritas operando em tempo integral em áreas de grande fluxo de banhistas.
O ALERTA DA ASSOCIAÇÃO DOS SALVA-VIDAS MILITARES
Diante da sequência de mortes, a Associação dos Salva-vidas Militares do Estado utilizou suas redes sociais para emitir um comunicado de alerta. A entidade destacou o esforço diário dos profissionais que atuam na Operação Verão, muitas vezes em condições adversas, com equipes reduzidas e estruturas limitadas.
No comunicado, a associação chamou a atenção para a necessidade urgente de reforço no efetivo, melhoria na gestão dos recursos humanos e maior atenção às áreas de risco. O texto também conclamou autoridades e a sociedade a adotarem medidas concretas de prevenção, ressaltando que a segurança no mar é uma responsabilidade coletiva, mas que depende diretamente de políticas públicas eficazes.
A FALTA DE EFETIVO E SUAS CAUSAS
Em entrevista concedida à Rádio Maristela, o vice-presidente da Associação dos Salva-vidas Militares do Rio Grande do Sul, sargento Jefferson França, foi direto ao afirmar que a atual Operação Verão enfrenta a pior falta de efetivo dos últimos anos. Segundo ele, o problema não tem uma única causa, mas resulta da combinação de vários fatores.
Atualmente, o Estado conta com cerca de 240 guaritas de salvamento entre litoral norte, litoral sul e águas internas. Para garantir cobertura adequada, seriam necessários aproximadamente mil guarda-vidas. No entanto, neste verão, o número disponível gira em torno de 800 profissionais, uma redução significativa em relação à temporada passada, quando o efetivo se aproximava do ideal.
O sargento explica que o recurso humano que atua nas praias é composto por três grupos. Bombeiros militares, policiais militares da Brigada Militar cedidos por convênio e guarda-vidas civis contratados temporariamente. Nenhum desses formatos, segundo ele, tem sido suficiente para suprir a demanda.
GUARDA-VIDAS CIVIS E A DESVALORIZAÇÃO PROFISSIONAL
Um dos principais gargalos apontados pela Asavime é a situação dos guarda-vidas civis. Apesar do investimento em treinamento feito pelo Corpo de Bombeiros, muitos profissionais acabam não retornando à Operação Verão devido à falta de valorização.
O salário, atualmente em torno de quatro mil reais mensais, é considerado baixo em comparação com outras oportunidades no mercado. O último reajuste, inferior a dez por cento, foi classificado como irrisório pela associação. Além disso, a obrigatoriedade de trabalhar em praias diferentes da cidade de origem desestimula muitos candidatos.
Segundo Jefferson França, há casos de guarda-vidas civis de Torres que precisam se deslocar para outras cidades, como Tramandaí ou Quintão, o que aumenta os custos e torna o trabalho pouco atrativo. Ao mesmo tempo, profissionais formados em Torres acabam sendo deslocados para outras praias, enquanto guaritas locais permanecem desguarnecidas.
Hoje, o Estado contaria, em tese, com cerca de 400 guarda-vidas civis. Na prática, pouco mais de 240 estão atuando, o que representa uma perda expressiva de mão de obra já qualificada.
BRIGADA MILITAR E VAGAS NÃO PREENCHIDAS
Outro ponto crítico envolve o convênio entre o Corpo de Bombeiros e a Brigada Militar. Pelo acordo firmado, a Brigada deveria disponibilizar 150 policiais militares habilitados para atuar como guarda-vidas durante a Operação Verão. Neste ano, apenas 132 foram apresentados, deixando um déficit de 18 profissionais.
De acordo com a Asavime, esses 18 guarda-vidas fariam diferença significativa na cobertura das praias, permitindo a abertura de ao menos quatro postos de salvamento. Para a associação, trata-se de um problema de gestão e articulação governamental, que poderia ser resolvido com diálogo e decisão política.
GUARITAS ATIVAS, MAS NÃO PERMANENTES
Além da falta de efetivo, outro fator que aumenta o risco de acidentes é o funcionamento parcial das guaritas. Muitas estão classificadas como ativas, mas operam em modelo não permanente. Isso significa que contam com guarda-vidas apenas em determinados horários, geralmente das nove ao meio-dia e das três às seis da tarde.
Esse intervalo sem cobertura ocorre justamente em períodos de grande fluxo de banhistas. Foi o que aconteceu na praia Paraíso, onde o jovem de 23 anos morreu por volta das 18h30. Embora a guarita estivesse oficialmente ativada, não havia guarda-vidas no local naquele momento.
Para Jefferson França, a população precisa compreender essa diferença, mas o ideal seria que todas as guaritas funcionassem de forma permanente, garantindo segurança do início ao fim do dia.
PREVENÇÃO COMPROMETIDA PELA FALTA DE PESSOAL
A ausência de guarda-vidas em número suficiente impacta diretamente o trabalho preventivo. Em áreas extensas, com poucos postos ativos, os profissionais não conseguem cobrir toda a faixa de areia, mesmo com o apoio de quadriciclos e motos aquáticas.
Na Praia Grande, em Torres, houve períodos recentes com a guarita 4 desativada, criando um trecho de cerca de 300 metros sem cobertura direta. Nesses casos, a prevenção feita a partir de guaritas vizinhas não é suficiente para evitar que banhistas entrem em áreas perigosas.
Segundo a associação, o guarda-vidas moderno é muito mais do que um socorrista. Ele orienta, educa e impede que situações de risco se concretizem. Sem efetivo adequado, esse trabalho perde eficiência.
O CUSTO DAS MORTES PARA O ESTADO
Durante a entrevista, o vice-presidente da Asavime chamou atenção para um aspecto pouco discutido. Cada morte por afogamento pode gerar um custo aproximado de 200 mil reais aos cofres públicos, em ações judiciais de indenização por responsabilidade do Estado.
No caso das três mortes registradas recentemente em Torres, o valor pode chegar a 600 mil reais. Segundo a associação, esse montante seria suficiente para reforçar o efetivo, melhorar salários, aumentar diárias e evitar novas tragédias. Para além dos números, porém, está o valor imensurável das vidas perdidas.
ORIENTAÇÕES AOS BANHISTAS
Enquanto a solução estrutural não chega, a principal orientação dos guarda-vidas é clara. Banhistas devem entrar no mar apenas em locais protegidos, próximos a guaritas com bandeira hasteada, sinal de que o posto está ativo naquele momento.
A recomendação vale especialmente para famílias com crianças e para horários fora do pico de atendimento. Placas de alerta são instaladas, mas muitas vezes ignoradas. Por isso, a atenção visual à bandeira do posto de salvamento é fundamental para reduzir riscos.
UM DESAFIO QUE SE REPETE A CADA VERÃO
A Operação Verão 2025/2026 escancara um problema que se repete ano após ano no Litoral Norte do Rio Grande do Sul. Os números de salvamentos e ações preventivas mostram o empenho dos profissionais, mas as mortes recentes evidenciam que o sistema opera no limite.
Para a Associação dos Salva-vidas Militares, não falta gente treinada nem disposição para trabalhar. Falta decisão política, gestão eficiente e valorização de quem arrisca a própria vida diariamente para salvar outras.
Enquanto isso, o mar segue sendo imprevisível. E cada guarita vazia representa não apenas uma falha administrativa, mas um risco real para quem busca no verão apenas um mergulho para aliviar o calor.
