Home EspecialO exame de rotina encontrou um tumor que Ramona não conseguia sentir

O exame de rotina encontrou um tumor que Ramona não conseguia sentir

por Melissa Maciel

Aos 47 anos, Ramona Carlos transforma a experiência com o câncer de mama em um chamado para a prevenção, o autocuidado e a valorização da vida.

“Eu não me sinto doente. Fisicamente eu estou bem.”

Foi diante de um corredor de hospital que Ramona Carlos, então com 43 anos, ouviu o silêncio do próprio medo. À sua frente estava o caminho que ela jamais havia imaginado percorrer, o da quimioterapia. Atrás dela, uma cirurgia que havia retirado um pequeno tumor da mama. No corpo, ainda não havia a aparência de quem estava doente. Na cabeça, porém, tudo acontecia ao mesmo tempo.

Ela olhou para aquele corredor e se perguntou: “O que eu estou fazendo aqui?”. A pergunta talvez resuma a contradição que acompanha tantas mulheres quando o câncer de mama entra inesperadamente em suas vidas, porque, por fora, a rotina pode continuar parecendo intacta, enquanto, por dentro, uma única palavra é capaz de reorganizar o passado, interromper planos e colocar diante dos olhos uma pergunta essencial. E agora?

Ramona tinha 43 anos quando recebeu o diagnóstico, em janeiro de 2023. Hoje, aos 47, fala sobre aquela experiência sem esconder as lágrimas, não porque queira permanecer presa ao que viveu, mas porque compreendeu que algumas histórias precisam ser contadas para que outras mulheres não adiem o cuidado consigo mesmas.

Ela não encontrou o câncer porque sentiu um caroço, não percebeu uma alteração evidente diante do espelho e não descobriu a doença pelo toque. Foi um exame de rotina que encontrou aquilo que ela não conseguia sentir. E talvez seja justamente aí que sua história encontre tantas outras mulheres, na diferença entre acreditar que está tudo bem e realmente saber, por meio do acompanhamento de saúde, como está o próprio corpo.

ANTES DELA

A preocupação com as mamas não era novidade na vida de Ramona. A mãe havia enfrentado câncer de mama e, desde então, realizar os exames regularmente tornou-se um compromisso ainda mais importante. “Depois que minha mãe teve câncer de mama, fazer os exames anualmente se tornou imprescindível”, conta.

Durante a pandemia, houve uma interrupção e, em um dos anos, ela não conseguiu manter a rotina de exames. Depois, retomou o acompanhamento e voltou a incluir a prevenção entre os cuidados com a saúde.

Em novembro de 2022, após tratamentos ginecológicos e episódios recorrentes de candidíase, procurou atendimento. A ginecologista solicitou exames e Ramona aproveitou para colocar vários cuidados em dia, incluindo mamografia, ultrassonografia mamária, ultrassonografia transvaginal e preventivo.

Era, para ela, mais um momento de cuidar da saúde. Na mamografia, porém, a enfermeira pediu que o exame fosse repetido. Ramona não associou a solicitação a algo grave. Depois, durante a ultrassonografia mamária, percebeu que a médica permanecia mais tempo examinando uma região. “Pensei comigo, deu alguma coisa.”

A médica solicitou uma biópsia. O pequeno nódulo não era palpável por Ramona: estava ali, mas ainda não podia ser percebido por suas mãos.

A ginecologista e obstetra Andreia Braga de Castro, formada em Medicina pela FURG, com especialização em Ginecologia e Obstetrícia pelo Hospital Materno Infantil Presidente Vargas e título de especialista pela FEBRASGO, explica que a situação é possível porque a mamografia consegue identificar alterações ainda em estágio inicial, antes que sejam percebidas clinicamente. Ela ressalta, porém, que conhecer o próprio corpo continua sendo fundamental.

“A mamografia vê lesões de milímetros, mas é você que mora no seu corpo todos os dias. Quando você se conhece, pode perceber uma mudança sutil muito mais rápido”, explica Andreia. Para a médica, o autocuidado não significa procurar doenças o tempo todo, mas reconhecer o que é habitual e buscar avaliação diante de qualquer mudança.

O INTERVALO

O calendário dizia dezembro. O coração de Ramona dizia outra coisa. A biópsia só pôde ser realizada em 2 de janeiro de 2023, por causa do período de final de ano, e a espera pelo resultado, para quem aguarda uma notícia capaz de mudar a própria vida, parecia muito maior do que os dias marcados no calendário. “Foi tudo muito rápido, apesar de os dias parecerem uma eternidade.”

Ramona tentava acreditar que não seria nada grave. Pensava na história da mãe, que havia enfrentado o câncer de mama e precisado apenas de radioterapia. Talvez fosse igual. Talvez aquela alteração tivesse outra explicação. Talvez tudo terminasse ali.

No dia 19 de janeiro, veio o resultado da biópsia: positivo para câncer de mama. “É como se abrisse um buraco nos pés da gente. Parece que o mundo desaba na cabeça.” Naquele mesmo dia, porém, também surgiram mãos para ampará-la. Ramona lembra de duas mulheres que a acolheram e ajudaram nos encaminhamentos necessários, a quem chama de “dois anjos” colocados por Deus em seu caminho. O diagnóstico trouxe medo, mas ela não precisou atravessar sozinha os primeiros momentos daquela nova realidade.

O TRATAMENTO

A cirurgia aconteceu em 10 de fevereiro de 2023. O tumor era pequeno e localizado; um quadrante da mama foi retirado e os linfonodos estavam preservados.

Depois veio a definição do tratamento: quimioterapia e radioterapia. A notícia foi especialmente difícil porque Ramona imaginava que seguiria um caminho semelhante ao da mãe, que havia precisado apenas de radioterapia.

A quimioterapia trouxe outro medo: perder o cabelo. Ramona trabalha com estética e design de sobrancelhas e, para ela, os fios estavam ligados à identidade, à beleza e à autoestima. “Saber que eu ia ficar sem meu cabelo me doeu muito.”

Após a segunda sessão, os fios começaram a cair. Por cerca de 45 dias, acompanhou diariamente a perda, sem se sentir preparada para raspar a cabeça ou usar peruca, enquanto lidava também com a insegurança provocada pelos olhares.

Andreia explica que a quimioterapia é apenas uma das possibilidades no tratamento do câncer de mama, definido de acordo com o tipo, o estágio e as características biológicas do tumor, além das condições individuais da paciente. “Cada mulher tem uma história diferente e o tratamento também é individualizado. Pode envolver cirurgia, radioterapia, quimioterapia, hormonioterapia ou terapias específicas, dependendo das características daquele câncer”, esclarece.

Por isso, a médica orienta que as trajetórias não sejam comparadas, pois o tratamento indicado para uma paciente pode não ser o mesmo para outra. “O mais importante é que a mulher tenha acesso ao diagnóstico e ao tratamento adequado no tempo oportuno.”

UM DIA DE CADA VEZ

Foram 12 sessões de quimioterapia, em ciclos de 21 dias, seguidas por 15 sessões diárias de radioterapia, encerradas em novembro de 2023. O período mais intenso durou cerca de um ano, marcado por cansaço, mal-estar e debilidade física.

Ao mesmo tempo, Ramona decidiu cuidar também da saúde emocional. “Eu priorizei cuidar do emocional e mental, o que ajudou muito na minha jornada.”

Fez terapia com Reiki, caminhava diariamente, aprendeu a correr, manteve as aulas de Pilates, passou a cuidar mais da alimentação e buscou outras formas de autoconhecimento. Atualmente, faz Terapia de Reprocessamento Generativo (TRG), voltada, segundo ela, ao reprocessamento mental e ao equilíbrio emocional. Essas práticas não substituíram o tratamento médico, mas foram, para Ramona, uma forma de cuidar de uma dimensão também afetada pela doença.

O CABELO

Talvez nenhum outro símbolo represente tão bem a transformação vivida por Ramona quanto o cabelo. Antes, ela trabalhava diariamente com a imagem e a autoestima de outras mulheres. Durante o tratamento, precisou reconstruir a própria relação com a imagem diante do espelho e entender que a mulher que enfrentava o câncer não precisava corresponder à imagem de força que os outros esperavam dela.

Ela podia chorar, sentir medo, pedir ajuda e não conseguir em alguns dias, sem que isso significasse fraqueza. Quando finalmente decidiu raspar os cabelos, estava cercada pela família, pela filha e por amigas. Gravou um vídeo e guardou aquele momento, que hoje olha de outra maneira: não como o registro de uma mulher derrotada pela doença, mas como a imagem de alguém que atravessou uma etapa difícil e encontrou forças para continuar. Foi também um dos momentos em que percebeu que sua história poderia ultrapassar os limites de sua própria vida.

O CORPO FALA

Para a médica Andreia, a prevenção começa antes dos exames, com hábitos saudáveis e acompanhamento individualizado. “Prevenção começa nos hábitos: manter peso saudável, praticar atividade física regular, evitar cigarro e excesso de álcool e, quando possível, amamentar”, explica.

No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda, pelo SUS, a mamografia de rastreamento para mulheres de 50 a 74 anos, a cada dois anos. Fora dessa faixa etária, a realização de mamografia de rotina deve ser avaliada individualmente, considerando benefícios e riscos. Já diante de sinais ou sintomas suspeitos, a investigação pode ser indicada em qualquer idade.

Mulheres com histórico familiar importante, como casos de câncer de mama ou ovário em parentes próximos e jovens, câncer de mama masculino ou mutação genética conhecida, também precisam de avaliação individualizada e podem ter indicação de acompanhamento mais precoce.

“Cada mulher é única. Por isso, a consulta individual é tão importante”, afirma Andreia. Conhecer o próprio corpo também faz parte desse cuidado. Nódulo endurecido ou persistente, alterações no formato da mama, retração da pele ou do mamilo, secreção espontânea, ferida que não cicatriza, vermelhidão persistente, aspecto de casca de laranja ou caroço na axila devem ser avaliados.

SEM MEDO

No consultório, Andreia identifica principalmente três motivos para o adiamento dos exames: medo do resultado, falta de tempo e receio da dor durante a mamografia. “É aquela mulher que cuida de todo mundo e se deixa por último. Muitas vezes ela cuida dos filhos, do marido, dos pais, do trabalho, mas a própria consulta fica para quando der.”

Segundo a médica, quando o câncer de mama é identificado em estágio inicial, há maior potencial de tratamento curativo, enquanto diagnósticos tardios podem estar associados a doenças mais extensas e tratamentos mais complexos. O prognóstico depende da extensão e das características de cada tumor.

Ramona reconhece esse comportamento porque também viveu uma rotina em que o trabalho ocupava espaço demais. Hoje, ao conversar com mulheres em seu trabalho na área da estética, insiste na importância do acompanhamento e já encontrou mulheres na faixa dos 40 e 50 anos que nunca haviam feito mamografia.

Para Andreia, o Outubro Rosa deve ser mais do que um mês de campanhas: precisa transformar informação em cuidado. “Se você está adiando, marque hoje. Chame sua mãe, sua irmã, sua amiga e venham juntas. Troque o medo por um alívio no coração.”

DEPOIS

Já se passaram três anos desde o diagnóstico. Ramona se considera curada, segue em acompanhamento, utiliza o medicamento prescrito durante o tratamento e mantém exames e consultas periódicas.

Ela conta que se sentiu curada desde a cirurgia, quando o tumor foi retirado e os linfonodos estavam preservados, e escolheu manter esse pensamento enquanto cumpria as etapas complementares indicadas pela equipe médica. A esperança não eliminou o medo, mas mudou a forma como atravessou o tratamento.

Andreia, porém, ressalta que esperança não significa simplificar a doença. “Diagnóstico de câncer de mama não é sentença de morte. Tem tratamento, tem cura e tem vida depois, mas cada caso precisa ser avaliado individualmente e acompanhado conforme suas características.”

É justamente essa possibilidade de um “depois” que Ramona deseja que outras mulheres também consigam enxergar.

O PROPÓSITO

Depois da experiência, Ramona criou o canal @amesemonacarlos nas redes sociais para falar sobre prevenção e compartilhar o que viveu. Também escreveu sua história e tornou-se autora de Reprogramada para Viver, sobre sua jornada com o câncer, e do e-book Eu Sou Minha Fã.

Sonha publicar o livro físico e alcançar milhares de mulheres, não para ser lembrada pelo câncer, mas para que outras possam se lembrar de si mesmas antes de deixar algum cuidado para depois. “Tenho um propósito maior de Deus na minha vida, em que eu preciso falar da minha história, da minha vivência para despertar o autocuidado em outras mulheres.”

A fé também ocupa um lugar importante nessa trajetória. Ramona fala de Jesus, da oração e de uma experiência espiritual que, segundo ela, transformou a maneira como atravessou o tratamento. Foi, em sua experiência, uma fonte de força, significado e gratidão pelos dias que continuaram chegando.

PARA QUEM ADIA

Talvez exista uma mulher lendo esta história enquanto pensa em marcar uma consulta, fazer um exame ou simplesmente encontrar tempo para cuidar de si. Talvez o medo do resultado, da dor ou a rotina de cuidar de todos esteja adiando esse momento.

A história de Ramona não transforma o medo em certeza. Ela não sentia o pequeno tumor. Quem encontrou a alteração foi o exame. A informação não deve produzir pânico, mas lembrar que prevenção também significa permitir que o cuidado faça parte da rotina.

Idade, histórico familiar, fatores de risco e presença de sintomas devem ser considerados individualmente, com orientação profissional. Diante de qualquer alteração nas mamas, é importante procurar avaliação médica.

E há ainda a mulher que já recebeu o diagnóstico, espera a biópsia, inicia a quimioterapia ou enfrenta o medo de perder o cabelo. Para ela, Ramona não oferece uma fórmula, mas a própria história.

Três anos depois do diagnóstico, ela segue em acompanhamento, trabalha, cuida da família, pratica exercícios, escreve, fala sobre prevenção e faz planos. O câncer faz parte da sua história, mas não é a história inteira.

“É o amor próprio. Se ame, se cuide.”

Procure orientação profissional. Observe seu corpo. Faça os exames indicados para você. E, se um dia o diagnóstico chegar, lembre-se de que aquela palavra não precisa escrever sozinha o final da sua história.