Li partes de uma entrevista com o grande pensador francês Edgar Morin, hoje com 104 anos de vida. Quando começou a Segunda Guerra Mundial, tinha já 14 anos. Na virada do milênio era um octogenário. Teve o privilégio de experimentar a vida em circunstâncias muito diversas. Viveu expectativas que não se concretizaram e viu acontecer o inesperado, como a grande pandemia que sacudiu as bases da sociedade recente.
Apesar da longevidade, mantém-se lúcido e provocativo. Afirmou recentemente que “a velhice é um terreno fértil para a criação e a rebeldia”. E é assim, rebelde, que também afirma a necessidade de retomar valores como a amizade e a solidariedade. Aponta a ideia de retomar porque identifica um processo crescente de desumanização. Segundo ele, a ameaça maior pela qual estamos passando não vem da inteligência artificial mas da inteligência humana superficial.
Penso nestes valores apontados como uma resistência ao cotidiano desumanizante. A amizade e a solidariedade ainda são experiências que contagiam. Algo que pode ser experimentado com mais intensidade nesta época do ano em que buscamos viver ao ritmo das férias. Um tempo diferenciado não apenas como descanso do trabalho, mas também como um tempo outro onde o cultivo de amizades é fortalecido.
É comum o desejo de visitar amigos e parentes. Visitas gratuitas e descontraídas. Porque é um período em que “temos tempo”. No cotidiano, “não temos tempo”. E as visitas podem ser inconvenientes. Atrapalham rotinas.
A superficialidade do ato de viver se resume em produzir para consumir. E neste modelo, há uma espécie de tolerância no período que se resume às férias. Aí é permitido ter tempo para receber e oferecer visitas gratuitas.
Que este valor possa, de fato, contagiar. Quem dera, como uma epidemia.
É humanizante cultivar tempo para as amizades,