95 Anos

por Nicole Corrêa Roese

Nosso colega e amigo Pe. Leonir, há poucos dias, celebrou o ciclo de 95 anos de vida de sua mãe. Uma vida longa para os padrões médios. Curta para quem a desfruta. 

Meu pai, já próximo aos 90 anos, olhando para o cenário da encosta de serra em nossa região, proferiu este pensamento: “pena que a vida é curta”.

E agora, nesta semana, minha mãe celebra seus 95 anos vividos. Com saúde física diagnosticada como boa. Num estágio de demência que a fazem, por vezes, confundir espaços e tempos. Por momentos sofrendo por conta de uma cultura que exaltou por demais a produtividade e, também, o machismo. Expressa sofrimento por não ter condições de fazer o que sempre fez e ainda por ver-se dependente de filhas e filho. Com dificuldade de aceitar que um filho homem esteja fazendo “coisas de mulher”.

Há poucas semanas, também minha sogra comemorou 95 anos cercada de amigos e disse que se sentia feliz pela presença de cada um e cada uma. Com um nível de consciência fora do comum para a idade, testemunha resiliência com um corpo que teima em se comunicar pelas dores.

Quando jovens, imagino que estas quatro vidas citadas não imaginavam ultrapassar a barreira dos 90. Era privilégio de muito poucas pessoas.  Encerrar o ciclo na dezena dos 60 ou 70 já era sinônimo de velhice.

As pessoas hoje estão vivendo mais. Estatisticamente, as expectativas médias apontam nesta direção, sem demonstrar indícios de limites. Poderemos avançar ainda mais.  

Uma preparação para estas novas possibilidades exige que revisemos alguns elementos culturais. Especialmente a ideia de nos mantermos produtivos. Envelhecer exige romper com paradigmas que definem o viver. Compreender que produzir não é sinônimo de gerar excedentes. Viver é também usufruir quando não mais se produz, sem o escrúpulo de estar sendo um atrapalho. Viver não é dividir o que se produziu, mas compartilhar o que se viveu.