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República

por Nicole Corrêa Roese

Como professor na área das humanas, sempre dediquei algum momento de estudo e reflexão sobre as diferentes possibilidades de organizar um Estado enquanto instituição responsável pelo gerenciamento da vida em sociedade de um determinado grupo social. A forma adotada pela maioria das nações e entendida como representativa do interesse coletivo é a República. Um jeito de tratar o exercício do poder como uma dimensão pública. E para garantir essa proposta, as repúblicas adotaram o modelo da divisão de poderes para

evitar a apropriação das estruturas de Estado como propriedade particular de uma pessoa ou grupo. Executivo, legislativo e judiciário são expressão de um poder não concentrado. Distribuído de forma equitativa e complementar.

Estamos num ano eleitoral e reduzimos nosso debate a nomes. O tempo da política poderia ser um tempo privilegiado para entendermos a dinâmica do poder. Um tempo para revisitarmos nossos modelos e formas de governo. Entender não apenas quem estamos escolhendo mas para que estamos escolhendo.

Uma manifestação da decadência do modelo republicano, tão debatido e discutido há séculos, são os movimentos que assistimos no entorno da Copa de futebol que está acontecendo especialmente nos EUA, país governado por um partido que se intitula “republicano”.

Há algumas semanas expressei minha indignação pelo fato de seu presidente vetar a presença de um juiz africano. Agora, para reafirmar a ideia de um poder como propriedade privada, o mesmo presidente intervém para suspender uma regra básica do futebol que é o cartão vermelho atribuído a um atleta de sua nação. Uma atitude que nega a essência dos princípios republicanos. Porque entendeu que o juiz que o aplicou é “suspeito”.

Não podemos esquecer que este mesmo cidadão também tentou  um golpe de estado quando foi derrotado em eleições. E foi protegido pelos seus correligionários republicanos.

Privatizar é uma forma de afirmar o “cada um por si e deus por todos”, desde que esse deus não seja o “meu”, é claro.