Um dos elementos que nos caracterizam enquanto humanos é a capacidade de produzir traços culturais. Costumes e tradições não são valores apenas conservados mas constantemente reinventados. Foram produzidos num determinado contexto histórico e são ressignificados em outros.
Esta “Semana Farroupilha” é um destes tempos privilegiados para observar e vivenciar esta realidade.
Há um imaginário relativamente ingênuo de estar resgatando e preservando tradições. Não faltam rodas de conversa para relembrar “velhos tempos” e velhos costumes. Expressões de uma saudade que muitas vezes é desejo e esperança. Usa-se o conceito tradicionalismo para afirmar um jeito de ser que se deseja para o presente, mesmo que de forma simbólica.
Música, indumentária e culinária que não são as do cotidiano passam a ser exaltadas e acolhidas com entusiasmo. Um tempo intenso de rompimento com o cotidiano.
Mas há um elemento que se configurou como identitário do espírito gaúcho, a ponto de ser o traço mais lembrado como símbolo. Ao apresentar a bandeira, a bombacha, o churrasco, o cavalo ou um lenço de pescoço nem todos relacionam diretamente com a população deste estado. O mesmo não podemos dizer de um chimarrão cevado em cuia de porongo.
Mais do que beber, dividir um chimarrão é um ato de fortalecimento do espírito gaúcho. Abastece a alma. Cevar um mate é abrir um espaço para a conversa, para o diálogo.
Muitos já nos habituamos a tomar chimarrão sozinhos. E o fazemos não por opção mas como compensação pela ausência de uma companhia.
Na roda, suspendemos as regras de higiene. A bomba é sagrada. É esterilizada pela tradição. Não transmite vírus.
A erva vai adotando sabores e odores, sem perder a cor e sem perder o espírito que lhe foi atribuído ainda pelos povos originários deste sul continental.
Espírito Gaúcho
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