Tenho observado, e eu mesmo experimento esta tendência de curtir um tempo de férias longe de casa como sinônimo de um tempo de descanso, de rompimento com o cotidiano marcado pelas relações de trabalho.
A maioria exerce uma rotina diária de atividades caracterizadas como trabalho necessário para manutenção da vida. Para viver ptrcisamos produzir condições que são adquiridas através de um capital acumulado pelo trabalho. Mesmo os que vivem às custas da exploração do trabalho alheio entendem que o ato de extrair do outro seu sustento é uma forma de trabalho. E férias é a possibilidade de usufruir uma espécie de excedente da receita.
O fato de desfrutar deste direito em ambientes que não são do cotidiano traz consigo também a ideia de que o nosso espaço convencional é um espaço pensado a partir do trabalho. Há uma tendência também crescente em transformar as moradias em espaços pragmáticos, ou seja, pensados de maneira funcional. Apartamentos e casas são projetadas pelas e para as novas gerações com dimensões cada vez menores. Terrenos e pátios minúsculos. Uma realidade já observada há décadas em países onde o sistema produtivo e o crescimento econômico se destacam. A habitação não se reveste da amplitude para o lazer. A também tendência de trabalhar a partir de casa (home office) acelera esta descaracterização da casa como espaço de vivências e convivências. É apenas mais um espaço de trabalho.
Daí a crescente busca de um tempo de férias longe de casa. Alguns optam, e se orgulham disso, por ter uma casa na praia, exatamente para diferenciar a funcionalidade do espaço habitado. A nossa casa do dia a dia é transformada num espaço considerado extensão do trabalho e a experiência de viver num ambiente de tranquilidade de bem estar fica reduzido às férias, quando podemos sair para longe de casa.
“É o que temos”, poderão concluir alguns. E até entendo que não precisamos nos estressar com isso. Mas perceber e ter consciência de que esta dinâmica nos consome é necessário, caso um dia queiramos optar por algo diferente.