Déficit superior a R$ 5,2 milhões na maternidade e na UTI, denúncias sobre a estrutura hospitalar e mortes recentes aumentam a insegurança da população em relação ao atendimento no Hospital Nossa Senhora dos Navegantes.

Três casos recentes envolvendo gestantes atendidas no Hospital Nossa Senhora dos Navegantes (HNSN), em Torres, aumentaram a insegurança entre famílias, profissionais da saúde e autoridades públicas sobre a qualidade e a segurança dos atendimentos prestados pela instituição. As situações ganharam repercussão nas redes sociais e mobilizaram pedidos de investigação, expondo não apenas suspeitas de falhas médicas, mas também um cenário mais amplo de dificuldades financeiras, denúncias sobre funcionamento da UTI, falta de profissionais e questionamentos sobre a gestão do principal hospital da região de Torres.
A morte da bebê Aurora, cuja família aponta suposta negligência da obstetra responsável pelo parto; o caso de uma gestante que descobriu uma gaze esquecida dentro do corpo após cesariana realizada pela mesma médica; e a morte recente de outra mãe durante o parto, deixando a bebê Maria, que recebeu alta vestida com trajes gaúchos na cor rosa, em homenagem a um desejo da mãe, provocaram forte comoção em Torres e em toda a região. A homenagem à recém-nascida sensibilizou a comunidade, mas não diminuiu as dúvidas levantadas pelas famílias sobre a qualidade do atendimento prestado e se houve ou não negligência médica nos casos.
A POSIÇÃO OFICIAL DO HOSPITAL
Diante da repercussão, a reportagem buscou esclarecimentos junto ao IB Saúde, instituição responsável pela administração do hospital. Em nota oficial, o Hospital Nossa Senhora dos Navegantes afirmou que instaurou sindicância médica e apuração interna sobre os atendimentos e a conduta da profissional suspeita.
A instituição declarou ainda estar colaborando com o Conselho Regional de Medicina (Cremers) e autoridades policiais, fornecendo prontuários e documentos necessários para investigação.
“O Hospital Nossa Senhora dos Navegantes preza pela transparência e reitera que não compactua com qualquer tipo de conduta que coloque em risco a integridade de seus pacientes”, afirmou a direção em nota.
O hospital também garantiu que o dimensionamento das equipes médicas e de enfermagem segue as normas técnicas exigidas pelos órgãos fiscalizadores.
DENÚNCIAS SOBRE A UTI
Paralelamente à nota oficial, um médico que atuou na UTI do hospital e pediu sigilo da identidade relatou à reportagem um cenário de precarização da estrutura técnica da unidade.
Segundo ele, houve descumprimento das normas que regulam o funcionamento de UTIs, especialmente em relação à exigência de médicos intensivistas e responsáveis técnicos.
O profissional relatou ainda que a equipe da UTI que atuava até o início de 2026 teria sido desligada de forma abrupta. Segundo o médico, os profissionais foram comunicados apenas em janeiro de que os contratos haviam sido encerrados retroativamente desde o dia 1º daquele mês. Ele afirma que há pagamentos pendentes referentes aos meses de dezembro e janeiro.
O médico também acusa a nova gestão da UTI de operar sem estrutura mínima exigida.
“Para funcionar uma UTI com dez leitos é preciso um médico intensivista responsável técnico, um médico rotineiro e um plantonista. A proposta era funcionar sem responsável técnico e sem intensivista”, declarou.
Segundo ele, a unidade passou a operar com equipe reduzida e médicos recém-formados. O profissional disse ainda ter encaminhado denúncias ao Cremers, ao Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers) e à Sociedade de Terapia Intensiva do RS, mas afirma não ter recebido retorno.
A CRISE FINANCEIRA

As denúncias ampliam um debate já existente sobre as condições estruturais e financeiras do hospital.
O coordenador da 18ª Coordenadoria Regional de Saúde, Robson Bobsin Brehm, afirmou que o Governo do Estado do RS mantém todos os pagamentos em dia e negou atraso de repasses estaduais ao hospital.
Segundo ele, o Estado realizou aportes extras no período de maior demanda do verão, além de habilitar novos serviços ao hospital.
Robson destacou que investimentos em equipamentos e ampliação de serviços dependem de solicitação formal da própria gestão hospitalar.
OS NÚMEROS DO DÉFICIT
Os dados financeiros apresentados pelo próprio IB Saúde ajudam a entender o tamanho do problema.
Segundo nota enviada ao Jornal do Mar, apenas os serviços de maternidade e UTI geram déficit operacional superior a R$ 5,2 milhões.
Na maternidade, a receita total em 2025 soma pouco mais de R$ 2,2 milhões, enquanto os custos ultrapassam R$ 4,9 milhões. O resultado negativo é de R$ 2,69 milhões.
Já a UTI apresenta receita anual contratual de R$ 2,64 milhões frente a custos superiores a R$ 5,24 milhões, produzindo déficit de R$ 2,59 milhões.
Somados, os dois setores acumulam prejuízo superior a R$ 5,29 milhões.
A instituição afirma que busca apoio de parlamentares, Ministério da Saúde, Secretaria Estadual da Saúde e municípios da região para reduzir o déficit operacional.
A ATUAÇÃO DA CÂMARA
O Legislativo de Torres acompanha a situação do hospital através de requerimentos, pedidos de informações, audiências públicas e repasses financeiros.
O presidente da Câmara de Vereadores, Igor dos Santos Bereta, afirmou que o município e parlamentares têm destinado recursos significativos à instituição.
Segundo ele, somente em emendas parlamentares previstas para execução em 2026, o hospital deverá receber R$ 868,1 mil oriundos de vereadores.
Além disso, o Legislativo autorizou subvenções municipais de R$ 500 mil e R$ 1,44 milhão para auxílio ao hospital.
Bereta reconheceu dificuldades na gestão hospitalar, mas destacou que o problema estrutural ultrapassa Torres. “O grande problema é a tabela SUS. Ela não cobre os custos dos serviços”, afirmou.
Ao mesmo tempo, o vereador também criticou a qualidade do atendimento percebida pela população. “Para mim o atendimento é muito ruim. A reclamação é muito grande”, declarou.
MINISTÉRIO PÚBLICO ACOMPANHA SITUAÇÃO

A crise do hospital já mobiliza o Ministério Público do Rio Grande do Sul. A promotora de Justiça Dra. Dinamarcia Maciel de Oliveira informou que há um expediente administrativo permanente acompanhando a situação do HNSN.
Segundo ela, o Ministério Público realizou audiências, ouviu gestores municipais, profissionais médicos, representantes do IB Saúde e autoridades estaduais.
A promotora confirmou ainda que, no final de 2025, foi ajuizada Ação Civil Pública que garantiu liminar obrigando o Estado a realizar aporte extra de recursos para evitar colapso do hospital durante o verão.
“O Ministério Público tem essa pauta permanente e volta seus esforços para evitar qualquer prejuízo ou solução de continuidade desse serviço público essencial”, afirmou.
Ela também informou que denúncias relacionadas a vínculos trabalhistas e atrasos salariais vêm sendo encaminhadas ao Ministério Público do Trabalho.
Uma nova reunião entre Ministério Público, Estado e Prefeitura de Torres está marcada para hoje, 29 de maio, sexta-feira, para atualização do cenário financeiro e definição de possíveis encaminhamentos.
PREFEITURA AGUARDA AUDIÊNCIA
O prefeito de Torres, Delci Dimer, informou, por meio da assessoria de comunicação, que não irá se manifestar antes da audiência no Ministério Público.
Segundo a gestão municipal, o entendimento é de que o momento adequado para manifestação pública será após a reunião e os encaminhamentos oficiais.
O QUE DIZ A POPULAÇÃO
Enquanto as investigações avançam, a população demonstra crescente preocupação com o atendimento hospitalar.
A Rádio Maristela realizou enquete com ouvintes perguntando: “Na sua opinião, o atendimento no hospital é?”. O resultado mostrou forte insatisfação popular.
Dos 363 votos registrados, 54% classificaram o atendimento como ruim; 36% consideraram regular; e apenas 10% avaliaram como bom.
Outra pergunta feita aos ouvintes foi: “O que precisa melhorar no Hospital para mais qualidade no atendimento?”. As respostas apresentaram pontos recorrentes: necessidade de mais médicos e especialistas; ampliação da oferta de exames; rapidez em tomografias, ecografias e raio-x; melhoria na infraestrutura; falta de materiais básicos; valorização e melhor remuneração dos profissionais; ampliação das especialidades; mais acolhimento e humanização; críticas à transferência de pacientes para a UPA sem triagem adequada; necessidade de cumprimento de horários no ambulatório.
CRISE
As manifestações mostram que, além das denúncias recentes envolvendo mortes e possíveis falhas médicas, existe uma percepção coletiva de desgaste no atendimento hospitalar.
O cenário que emerge é de um hospital pressionado por déficits milionários, dificuldades estruturais, desgaste profissional, dependência de recursos públicos extras e crescente desconfiança da população.
Ao mesmo tempo, o HNSN permanece sendo referência para milhares de moradores e turistas do Litoral Norte, o que torna ainda mais urgente a necessidade de respostas rápidas, transparência nas investigações e medidas concretas para garantir segurança aos pacientes.
Mais do que uma crise financeira ou administrativa, o Hospital Nossa Senhora dos Navegantes enfrenta hoje uma crise de confiança.