
Com arrecadação em alta, saldo positivo e receita recorde já nos primeiros meses de 2026, o principal cartão-postal de Torres enfrenta o desafio de transformar recursos em melhorias.
O Parque Estadual José Lutzenberger, popularmente conhecido como Parque da Guarita, não é apenas um dos principais atrativos turísticos de Torres. Os números revelam que ele também se consolidou como uma importante fonte de arrecadação para investimentos ligados à estrutura, manutenção e promoção do próprio espaço.
Dados obtidos por meio de Pedido de Informação apresentado pelo vereador Cláudio Freitas (Republicanos) mostram que, entre 2022 e 2025, o fundo vinculado ao parque arrecadou R$ 4.442.000,58 e registrou despesas de R$ 3.928.427,59. O saldo acumulado no período chegou a R$ 513.572,99.
Os números, porém, abriram uma discussão que vai além das planilhas. Afinal, quanto desse dinheiro retorna efetivamente em melhorias visíveis para moradores e visitantes? Quais investimentos estão previstos? E quais são as prioridades para o futuro do principal cartão-postal da cidade?
AS CONTAS
A série histórica demonstra crescimento da arrecadação nos últimos anos.
Em 2022, o parque arrecadou R$ 960.333,24 e registrou despesas de R$ 1.106.234,54, encerrando o ano com déficit de R$ 145.901,30.
Já em 2023, a arrecadação saltou para R$ 1.189.274,75, enquanto os gastos ficaram em R$ 1.144.644,24, gerando saldo positivo de R$ 44.630,51.
Em 2024, a receita alcançou R$ 1.091.122,45 e as despesas somaram R$ 1.031.777,97, produzindo superávit de R$ 59.344,48.
Os números de 2025 chamam atenção. A arrecadação líquida chegou a R$ 1.201.269,14 e as despesas informadas totalizaram R$ 645.770,84, o que representa saldo positivo superior a R$ 555 mil.
O crescimento da arrecadação também evidencia a força do turismo em Torres. Entre 2022 e 2025, houve aumento superior a 25% na receita anual do parque.
RECORDE ANTECIPADO
Se os números dos últimos anos já impressionam, os dados de 2026 elevam ainda mais o debate.
Até maio deste ano, o fundo do Parque da Guarita acumulava R$ 1.396.388,06. O valor supera toda a arrecadação anual registrada em cada um dos quatro anos anteriores.
Embora ainda não seja possível afirmar qual será o resultado financeiro definitivo de 2026, já que despesas importantes continuam ocorrendo ao longo do ano, o desempenho demonstra a capacidade de geração de receita do parque. A explicação passa principalmente pela temporada de verão.
Os relatórios mostram que janeiro e fevereiro concentram os maiores volumes de arrecadação. Em alguns dias da alta temporada, a entrada de recursos ultrapassou R$ 40 mil, enquanto nos meses de menor movimento os valores diários caem significativamente.
DE ONDE VEM O DINHEIRO

A cobrança de ingressos representa a principal fonte de receita, mas não é a única.
Os relatórios financeiros apontam outras entradas de recursos, como pagamentos relacionados à concessão do restaurante instalado dentro do parque, rendimentos de aplicações financeiras, taxas de utilização de imagem e cobranças para realização de eventos.
Segundo o secretário municipal de Turismo, Gabriel de Mello, o sistema de gestão do parque estabelece que 10% da arrecadação seja repassada ao Governo do Estado do RS, enquanto os outros 90% devem ser reinvestidos exclusivamente no próprio parque.
“O recurso arrecadado tem aplicação vinculada ao parque. Existe uma série de rubricas previstas para investimentos em infraestrutura, promoção, desenvolvimento e melhorias”, explicou.
INVESTIMENTOS

Entre as intervenções previstas pela administração municipal estão obras consideradas prioritárias para a modernização da estrutura.
Uma das principais é a reforma do pórtico de entrada, cuja condição atual é considerada crítica pela Secretaria Municipal de Turismo.
Também estão previstos investimentos na modernização do sistema de acesso, substituição de equipamentos, melhoria da sinalização e ampliação da infraestrutura para visitantes.
Outra obra considerada histórica é a ligação definitiva da rede de esgoto.
Segundo Gabriel, apesar de existir há mais de quatro décadas, o parque nunca teve conexão permanente ao sistema de esgotamento sanitário.
“Estamos trabalhando nessa questão ambiental. O parque tem mais de 40 anos e não tinha esgoto ligado”, afirmou.
A ampliação dos sanitários também integra o planejamento. A meta é dobrar a capacidade atual de atendimento ao público.
Projetos relacionados aos novos banheiros e ao novo pórtico estão sendo desenvolvidos em conjunto com a Secretaria Municipal de Planejamento.
SEGURANÇA
Entre os gastos recentes está a contratação de segurança privada. De acordo com o secretário, a medida substituiu o modelo anterior, que contava principalmente com atuação da Guarda Municipal.
A mudança aumentou os custos operacionais, mas trouxe resultados positivos na prevenção de ocorrências.
Segundo ele, não houve novos registros de furtos, roubos ou ameaças em áreas internas do parque após a implantação do novo sistema.
A administração também avalia a contratação de guarda-parques com atribuições específicas de fiscalização e orientação aos visitantes.
ANFITEATRO

Embora a administração municipal reconheça a importância do anfiteatro da Guarita, a recuperação do espaço não aparece entre as primeiras obras da lista de prioridades.
O assunto, porém, ganhou força após a divulgação dos dados financeiros.
O vereador Cláudio defende que parte dos recursos arrecadados seja destinada à revitalização da estrutura, que durante décadas recebeu apresentações culturais, eventos educacionais e atividades turísticas.
“O parque arrecada valores significativos e pelo menos uma parte desse dinheiro deveria ser aplicada em melhorias para os visitantes e para a valorização daquele patrimônio que é um dos maiores símbolos de Torres”, afirmou.
O parlamentar também propõe a criação de um museu a céu aberto com informações históricas sobre a cidade e melhorias de acessibilidade na área do anfiteatro.
Para ele, o espaço tem potencial para voltar a integrar o calendário de eventos culturais e turísticos do município.
RESTAURANTE

Outra frente em discussão envolve a concessão do restaurante localizado dentro do parque.
A Secretaria de Turismo confirmou que trabalha na elaboração de um novo processo licitatório em conjunto com o Governo do Estado. A intenção é selecionar a proposta que apresente o melhor projeto para o espaço, e não apenas a maior oferta financeira.
Atualmente, o local opera por meio de concessão emergencial enquanto são concluídos os estudos para o novo edital. Segundo Gabriel, a expectativa é qualificar o serviço e adequar o empreendimento à imagem turística que Torres pretende consolidar nos próximos anos.
O DESAFIO
Os números mostram que o Parque da Guarita deixou de ser apenas um dos cenários mais fotografados do litoral gaúcho para se tornar também um importante ativo econômico do município.
A arrecadação crescente, o saldo positivo acumulado e o desempenho recorde registrado em 2026 indicam capacidade financeira para novos investimentos.
O debate agora se concentra na forma como esses recursos serão aplicados e em quanto tempo as melhorias planejadas começarão a beneficiar moradores e visitantes.