O aumento precoce de casos respiratórios e a maior percepção de risco impulsionam a adesão, com destaque para os grupos prioritários.

O cenário da saúde pública em 2026 começa a revelar um movimento que especialistas tratam como fundamental, marcado pela retomada consistente da procura por vacinas, especialmente contra a influenza. Em um contexto de aumento antecipado de casos de doenças respiratórias, a população, sobretudo os grupos prioritários, voltou a reconhecer o valor da imunização como ferramenta central de proteção. O resultado é uma resposta mais rápida, mais consciente e, sobretudo, mais alinhada às recomendações sanitárias.
Os dados mais recentes do Painel de Hospitalizações por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), atualizados em 15 de abril de 2026, ajudam a dimensionar esse cenário. No Rio Grande do Sul, o monitoramento de SRAG aponta incidência de até 16,11 casos por 100 mil habitantes em determinados recortes, com 63,64% das internações demandando leitos de UTI. Em outro recorte atualizado, a incidência aparece em 9,64 por 100 mil habitantes, com ainda maior pressão sobre a rede hospitalar: 66,67% das internações evoluindo para terapia intensiva. A taxa de mortalidade no Estado varia entre 2,05 e 2,93 por 100 mil habitantes, enquanto a letalidade hospitalar oscila de 18,18% a 21,21%.
Esses indicadores não são apenas números. Eles ajudam a explicar por que a população passou a agir antes. O aumento de hospitalizações, que chega a 33 casos em um dos recortes mais recentes, com sete óbitos confirmados, evidencia a gravidade do momento epidemiológico. Entre as mortes por SRAG, a Covid-19 ainda responde pela maior parcela (quatro casos), seguida por influenza (dois casos) e outros agentes etiológicos (um caso). Já entre as hospitalizações, chama atenção o volume de casos ainda não especificados (16), além de registros por Covid-19 (seis), rinovírus e outros vírus respiratórios (quatro cada) e influenza (dois).


AUMENTO DE SRAG
Na prática, o que se observa é uma circulação simultânea de vírus respiratórios, o que amplia o risco coletivo e pressiona o sistema de saúde. Esse ambiente tem impacto direto no comportamento social. A percepção de que “há mais gente doente” deixa de ser abstrata e passa a ser vivenciada no cotidiano, nos atendimentos, nas escolas, nos ambientes de trabalho. É esse fator, aliado aos dados epidemiológicos, que tem impulsionado a busca pela vacinação.
No Litoral Norte gaúcho, de acordo com o coordenador da 18ª Coordenadoria Regional da Saúde, Robson Bobsin Brehm, o reflexo da adesão a vacinação é imediato. Já são mais de 25.322 doses aplicadas, com cobertura inicial de 19,37% entre os grupos prioritários. O volume distribuído também evidencia a capilaridade da campanha: municípios como Osório (9.150 doses), Tramandaí (8.570), Capão da Canoa (8.270) e Torres (7.260) concentram os maiores quantitativos, acompanhando o porte populacional.
TORRES

No município de Torres, o comportamento da população confirma a tendência de retomada. Até o momento, 4.643 doses já foram aplicadas, exclusivamente em grupos prioritários. A coordenadora de imunizações, enfermeira Francieli Mello, destaca que o cenário atual rompe com o padrão observado nos últimos anos. “A procura está superando as expectativas. Antes, as doses enviadas pelo Estado muitas vezes sobravam ou demoravam a ser utilizadas. Agora, estamos enfrentando o movimento inverso. As remessas não estão sendo suficientes até a chegada de novos lotes”, afirma.
O perfil da vacinação também segue a lógica epidemiológica. A maior adesão vem de idosos, seguidos por crianças, gestantes e profissionais de saúde. Paralelamente, o município tem intensificado estratégias de alcance, com vacinação de pacientes acamados, atendimento domiciliar e ações em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), ampliando a cobertura entre os públicos mais vulneráveis.
GRUPO PRIORITÁRIO
A mobilização da campanha concentra esforços nos grupos prioritários, especialmente crianças, gestantes e idosos com 60 anos ou mais, públicos mais suscetíveis a formas graves da doença e maior risco de hospitalização. A estratégia busca reduzir impactos no sistema de saúde ao proteger, de forma antecipada, quem apresenta maior vulnerabilidade clínica.
A vacina influenza trivalente integra o Calendário Nacional de Vacinação e é indicada para crianças de 6 meses a menores de 6 anos, idosos e gestantes. A imunização também é ampliada para outros públicos estratégicos, como pessoas com comorbidades, profissionais de saúde e populações específicas, conforme diretrizes do Ministério da Saúde.
Para crianças de 6 meses a 8 anos, o esquema vacinal varia conforme o histórico, sendo dose única para quem já foi vacinado anteriormente e duas doses, com intervalo mínimo de quatro semanas, para aqueles sem vacinação prévia.
A orientação das autoridades sanitárias é para a população do grupo de risco buscar a unidade de saúde mais próxima antes do período de maior circulação do vírus, garantindo proteção no momento mais crítico.
ESQUEMA VACINAL 2026

O esquema vacinal de 2026 no Brasil reforça a lógica de atualização permanente e ampliação da proteção ao longo do ciclo de vida, com foco em doenças de maior impacto epidemiológico.
Entre os principais avanços recentes está a ampliação da vacina contra a dengue para adolescentes de 10 a 14 anos em todo o país, com esquema de duas doses, além da manutenção da vacinação anual contra a influenza para os grupos mais vulneráveis. Outro destaque é a incorporação do nirsevimabe, indicado para proteção de bebês contra o vírus sincicial respiratório (VSR), principal causador de bronquiolite nos primeiros meses de vida.
O Calendário Nacional de Vacinação segue estruturado com imunizantes essenciais, garantindo cobertura desde o nascimento. Ao nascer, são aplicadas as vacinas BCG e Hepatite B. Aos 2, 4 e 6 meses, o esquema inclui Pentavalente, VIP, Rotavírus e Pneumocócica 10. Aos 3 e 5 meses, ocorre a aplicação da Meningocócica C ou ACWY. Com 12 meses, são administradas a Tríplice Viral e os reforços da Pneumocócica e Meningocócica. Aos 15 meses, entram a Tetraviral, o reforço da DTP e a vacina contra Hepatite A.
Na faixa etária de 9 a 14 anos, o calendário contempla a vacinação contra HPV e dengue. Para adolescentes e adultos, permanece a recomendação de reforço da vacina dT a cada 10 anos. Já os idosos devem manter a imunização anual contra influenza e a proteção contra doenças pneumocócicas.
Entre gestantes, a recomendação inclui Hepatite B, dT ou dTpa a partir da 20ª semana, além das vacinas contra influenza, Covid-19 e VSR a partir da 28ª semana. A diretriz central das autoridades sanitárias é garantir proteção contínua e antecipada, reduzindo riscos individuais e fortalecendo a resposta coletiva frente às doenças imunopreveníveis.
MOBILIZAÇÃO
A leitura técnica desse cenário aponta para uma convergência de fatores. O aumento de casos de síndromes gripais logo no início do ano, a circulação simultânea de vírus como influenza e VSR, e a intensificação das estratégias de comunicação e mobilização criaram um ambiente favorável à adesão. A campanha nacional, iniciada ainda em março nas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, foi estruturada justamente para antecipar a proteção antes do pico do inverno.
Outro ponto relevante é a qualificação da estratégia de comunicação. O envio de milhões de mensagens institucionais, aliado à ampliação dos pontos de vacinação e ao reforço do Dia D, contribuiu para reduzir barreiras de acesso e ampliar a confiança da população. Trata-se de uma abordagem multicanal que, na prática, reposiciona a vacinação como prioridade na agenda coletiva.
Ainda assim, o desafio da cobertura plena permanece. A meta do Ministério da Saúde é alcançar, no mínimo, 90% de imunização em cada grupo prioritário, um patamar que exige manutenção do ritmo atual e intensificação da busca ativa, especialmente em áreas com menor adesão.
O cenário de 2026 oferece uma leitura clara. A adesão à vacinação cresce quando há percepção concreta de risco aliada a uma resposta eficiente do sistema de saúde. Em Torres e em toda a região, essa combinação começa a produzir resultados de uma proteção coletiva.