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Réveillon revela os principais desafios de Torres para receber grandes públicos

por Melissa Maciel

Uma noite de celebração que reuniu quase um milhão de pessoas e expôs o desafio de receber grandes públicos sem comprometer a cidade, o meio ambiente e a qualidade de vida.

REPRODUÇÃO/DANIEL LUMMERTZ

À meia-noite, o céu de Torres se abriu em cores. Fogos refletidos no mar, abraços apertados na areia fria, brindes improvisados e a tradição da roupa branca carregada de desejos por um ano melhor. A estimativa da Prefeitura aponta que cerca de 850 mil pessoas acompanharam a festa da Virada no município, consolidando Torres como um dos destinos mais procurados do Litoral Norte gaúcho para receber 2026.

O Réveillon transcorreu em clima de tranquilidade. Não houve registros de ocorrências graves, resultado de uma atuação integrada das forças de segurança, dos serviços de saúde e da organização municipal. O espetáculo foi exitoso sob a ótica da segurança pública e do entretenimento. Mas, quando o som cessou e a multidão começou a se dispersar, outro cenário se revelou sobre a areia.

O LIXO DEIXADO PARA TRÁS

Foto: Nicole Corrêa

Nas primeiras horas do dia 1º de janeiro, o amanhecer encontrou equipes de limpeza trabalhando intensamente na Praia Grande e nas Praias do Sul de Torres. Por volta das 3h da manhã, caminhões, máquinas e servidores municipais iniciaram uma força-tarefa para remover resíduos deixados após a celebração. O objetivo era claro, garantir praias limpas logo ao nascer do sol, preservando a imagem turística da cidade e reduzindo impactos ambientais.

O contraste, no entanto, foi evidente também em outros municípios do Litoral Norte. Em Capão da Canoa, garrafas de vidro, latas, copos plásticos e embalagens diversas tomaram conta da faixa de areia e do calçadão. A permanência de grupos após o encerramento dos shows exigiu a mobilização do Batalhão de Choque da Brigada Militar ao amanhecer, para dispersar aglomerações e permitir o início da limpeza.

O cenário escancarou uma realidade recorrente. A festa é coletiva, mas o rastro deixado para trás revela um problema estrutural de comportamento e de logística urbana.

A CIDADE COMPORTA O PÚBLICO?

A Rádio Maristela 106.1 FM levou essa inquietação à audiência. Em enquete realizada nos stories do Instagram, a pergunta foi direta: “O que Torres precisa melhorar para receber grandes públicos em eventos como o Réveillon?” Em 24 horas, 67 pessoas participaram. O resultado aponta prioridades claras: 43% defendem a criação de novos acessos à cidade para melhorar o fluxo de entrada e saída, especialmente em horários de pico; 28% indicam a necessidade de ampliar o número de lixeiras e reforçar a coleta de resíduos durante todo o evento, reduzindo o acúmulo de lixo na areia; 16% apontam a falta de estacionamentos, sugerindo alternativas organizadas e temporárias para absorver a demanda; e 12% propõem a descentralização da queima de fogos ao longo da orla, como forma de distribuir melhor o público e aliviar a concentração em um único ponto.

Além disso, surgiram sugestões espontâneas: aplicação de multas para quem não utiliza lixeiras, mais banheiros químicos, instrutores ambientais orientando o descarte correto, ampliação de chuveiros na orla e melhorias na qualidade dos fogos. Os dados revelam uma percepção madura da população: o desafio vai além do espetáculo e passa, necessariamente, pela infraestrutura e pela educação coletiva.

ACESSO, ESTACIONAMENTO E LIMPEZA

Em entrevista ao Jornal do Mar, o prefeito Delci Dimer foi enfático ao apontar os gargalos. Para ele, o principal entrave está no acesso ao município.

“Tivemos bastante congestionamento, tanto na entrada pela Avenida Castelo Branco quanto pela saída em direção ao Passo de Torres/SC. A cidade precisa, sim, trabalhar para ter um novo acesso, mas com qualidade, à altura de Torres.”

Segundo o prefeito, acessos secundários, como vias de chão batido, não atendem às expectativas do turista nem à imagem da cidade. A alternativa mais viável, na avaliação do gestor municipal, seria um novo eixo ligando a região da Avenida Independência à Estrada do Mar e à BR-101, o que também impulsionaria o desenvolvimento de bairros como São Francisco e áreas próximas à Praia da Cal.

O estacionamento aparece como outro problema crítico. Durante o Réveillon, carros ocuparam calçadas, canteiros de avenidas, praças, bloquearam garagens e dificultaram até mesmo a passagem de caminhões de coleta de lixo em algumas ruas. “Teve rua em que o caminhão não conseguiu passar. Isso impacta diretamente a limpeza e a organização urbana.”

Sobre parcerias público-privadas para uso temporário de terrenos como estacionamentos, o prefeito pondera que o alto valor do metro quadrado em Torres pode desestimular investimentos desse tipo, embora reconheça que o sistema de estacionamento rotativo pode, a médio prazo, incentivar novas soluções.

DESAFIO AMBIENTAL

A coleta de resíduos na beira-mar é um capítulo à parte. O prefeito admite que reforçar equipes durante todo o evento pode ser uma alternativa, mas ressalta as limitações operacionais. “É muita gente. Circular no meio do público nem sempre é possível. Mas colocar mais contêineres pode facilitar.”

O município chegou a planejar o uso de contêineres de mil litros, acopláveis aos caminhões, mas fatores como vento forte, maré alta e questões burocráticas atrasaram a implementação. O resultado é um esforço concentrado no pós-evento, quando o impacto ambiental já ocorreu. A reflexão é inevitável: limpeza resolve o efeito, mas não a causa.

TURISMO AQUECIDO, ESTRUTURA NO LIMITE

REPRODUÇÃO/CAMILA REIS

Apesar dos desafios, o Réveillon confirmou um verão aquecido para Torres. Segundo o prefeito, comércio, bares e restaurantes registraram movimento superior ao do ano passado. Filas, casas cheias e consumo elevado indicam um destino desejado.

Mas a presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares do Litoral Norte gaúcho, Ivone Ferraz, chama atenção para um dado estrutural. Torres possui cerca de 9 mil leitos formais na hotelaria regular. “Isso é a hotelaria que oferece segurança, PPCI, CNPJ. Não estamos falando de hospedagens clandestinas.”

Ivone explica que ampliar a rede hoteleira para atender picos específicos, como Réveillon e Carnaval, não é economicamente viável. Fora desses períodos, há vagas disponíveis em praticamente todo o litoral.

“Nesta semana, todos os hotéis têm vagas. Lota no fim de semana, mas não durante toda a semana. Por isso não há novos investimentos em hotéis.” O crescimento do turismo, portanto, não passa apenas por construir mais, mas por planejar melhor.

CONSCIENTIZAÇÃO

O Réveillon de Torres evidencia uma equação complexa. A cidade é atrativa, segura e desejada. O poder público tem desafios com organização e limpeza. O setor produtivo colhe os frutos do turismo. Ainda assim, o meio ambiente ainda paga um preço alto em poucas horas de festa.

O desafio que se impõe é coletivo. Receber quase um milhão de pessoas exige infraestrutura, planejamento e, sobretudo, consciência individual. O futuro do Réveillon no Litoral Norte parece depender menos do brilho dos fogos e mais da capacidade de cada pessoa entender que a praia não é descartável. Celebrar é legítimo. Preservar é indispensável. O equilíbrio entre esses dois verbos definirá não apenas as próximas viradas de ano, mas o próprio modelo de turismo que o Litoral Norte quer sustentar.