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Tarifa Zero ganha força em Torres e pode entrar em operação já no próximo verão

por Anderson Weiler

Modelo defendido pelo prefeito Delci Dimer prevê transporte coletivo gratuito, com custeio integral pelo Município. Entenda como funcionará o sistema, os impactos para a população, os desafios financeiros e o que ainda falta para a proposta sair do papel.

A possibilidade de implantação da Tarifa Zero no transporte coletivo urbano de Torres começa a ganhar contornos mais concretos. Após a aprovação, por unanimidade, na Câmara de Vereadores, do Projeto de Lei nº 35/2026, que moderniza o sistema de transporte público municipal e permite novos formatos de remuneração do serviço, o prefeito Delci Dimer confirmou que pretende adotar um modelo em que o Município custeie integralmente a operação dos ônibus, eliminando a cobrança de passagem dos usuários. Embora a proposta ainda dependa da análise das emendas aprovadas pelo Legislativo e da elaboração de um novo projeto de lei regulamentando o modelo, a intenção do Executivo é colocar o sistema em funcionamento até o próximo verão. A mudança poderá alterar não apenas a forma de financiamento do transporte, mas também a mobilidade urbana, o acesso ao emprego, a dinâmica econômica e até o mercado imobiliário da cidade.

O QUE É A TARIFA ZERO?

O conceito de Tarifa Zero é simples: o passageiro deixa de pagar pela utilização do transporte coletivo, enquanto o poder público assume o custeio da operação por meio de recursos do orçamento municipal.

Na prática, os ônibus continuam circulando normalmente, porém a remuneração da empresa deixa de depender da arrecadação obtida com a venda de passagens. Em vez disso, o Município passa a pagar pelos custos operacionais do serviço, garantindo que as linhas continuem funcionando independentemente do número de passageiros transportados.

Esse modelo já foi implantado em dezenas de municípios brasileiros e vem sendo apresentado como alternativa para enfrentar um problema comum em diversas cidades: a redução do número de usuários do transporte coletivo, que acaba tornando o serviço financeiramente inviável.

Em Torres, segundo o prefeito Delci Dimer, essa é justamente a solução considerada mais adequada para recuperar o sistema.

A ESCOLHA DO PREFEITO

Em entrevista à Rádio Maristela, Delci Dimer foi direto ao confirmar qual modelo pretende implantar.

“A minha ideia é a Tarifa Zero. Que beneficia mais a sociedade, principalmente quem mais precisa.”

Apesar da definição política, o prefeito explicou que ainda fará uma análise jurídica das cinco emendas incluídas pelos vereadores ao Projeto de Lei nº 35/2026 antes da sanção definitiva.

Dependendo do entendimento da Procuradoria Jurídica, algumas alterações poderão ser vetadas ou até exigir nova votação da Câmara Municipal.

Mesmo assim, Delci reafirmou que sua intenção permanece inalterada.

Segundo ele, cidades que adotaram esse sistema relatam resultados positivos e não demonstram interesse em retornar ao modelo tradicional de cobrança da tarifa.

COMO FICARÁ O FINANCIAMENTO

Ao contrário do sistema atual, no qual parte significativa da receita vem da passagem paga pelo usuário, o modelo de Tarifa Zero prevê que os custos da operação sejam cobertos pelo Município.

Isso inclui despesas como combustível, manutenção da frota, salários dos motoristas, administração e demais custos operacionais.

Embora ainda não exista um valor oficialmente definido para o subsídio municipal, o prefeito afirma que o estudo técnico elaborado pela Fundatec demonstrou que o modelo atual apresenta um desequilíbrio financeiro.

Segundo ele, a tarifa técnica, valor necessário para custear integralmente a operação, atualmente gira em torno de R$ 10 por passageiro.

Entretanto, cobrar esse valor da população é considerado inviável.

Por outro lado, manter a tarifa em torno de R$ 5 também não cobre os custos da empresa responsável pelo transporte coletivo.

Na avaliação do Executivo, a Tarifa Zero resolveria esse desequilíbrio ao substituir a arrecadação das passagens por recursos públicos.

UM TRANSPORTE PENSADO PARA AMPLIAR OPORTUNIDADES

Um dos principais argumentos apresentados pelo prefeito para defender a mudança está relacionado ao mercado de trabalho.

Segundo Delci Dimer, o custo do vale-transporte acaba influenciando decisões de contratação em algumas empresas.

Na prática, trabalhadores que residem em bairros mais afastados podem enfrentar dificuldades maiores para conseguir emprego em comparação com quem mora próximo ao Centro.

Para o prefeito, eliminar o custo da passagem cria condições mais igualitárias de acesso às vagas.

“Hoje, muitas empresas acabam contratando quem mora mais perto do Centro para não precisar pagar o vale-transporte. Com a Tarifa Zero, quem mora mais longe terá o mesmo benefício, principalmente quem mais precisa.”

A proposta também busca facilitar o deslocamento diário de estudantes, idosos, trabalhadores e pessoas que dependem do transporte coletivo para acessar serviços públicos.

IMPACTOS NA OPERAÇÃO DOS ÔNIBUS

Além da mudança no financiamento, a implantação da Tarifa Zero também poderá provocar alterações na própria operação do sistema.

A diretora da Torrescar, empresa responsável pelo transporte coletivo em Torres, Renata Dimer, afirma que o projeto vai muito além dos interesses da concessionária.

“O interesse da empresa sempre foi recompor o equilíbrio econômico-financeiro do contrato. Mas a Tarifa Zero vai além da empresa. É um projeto de mobilidade urbana do município.”

Segundo ela, um dos efeitos imediatos seria a retirada da função de cobrança exercida pelo motorista.

Na prática, o embarque dos passageiros ocorreria de forma mais rápida e sem necessidade de pagamento.

Isso reduziria conflitos dentro dos veículos relacionados ao pagamento da passagem.

Por outro lado, Renata alerta que experiências em outras cidades também apontam desafios.

Segundo ela, o transporte gratuito pode exigir reforço em segurança e investimentos para evitar episódios de vandalismo.

Ainda assim, avalia que os benefícios costumam superar as dificuldades.

“O transporte passa a ser mais valorizado pela população em geral. Há uma maior adoção.”

MAIS LINHAS E NOVOS HORÁRIOS

Outro aspecto importante apontado pelo estudo elaborado pela Fundatec diz respeito à ampliação da oferta de transporte.

Com a garantia de financiamento público, o sistema deixaria de depender exclusivamente da demanda de passageiros para justificar determinadas linhas.

Segundo Renata Dimer, o estudo prevê mudanças importantes.

Entre elas estão:

ampliação de horários da linha Paraíso;

inclusão das localidades de Salinas e Pirataba na operação;

criação de um circuito noturno, apelidado de “Circularzão”, com saídas previstas para as 22h e 23h, atendendo bairros como Vila, São Brás e Itapeva.

Essas mudanças buscam atender uma demanda antiga da população, principalmente de trabalhadores que encerram o expediente no período da noite.

O POSICIONAMENTO DO VICE-PREFEITO

O vice-prefeito André Pozzi também defende a implantação do novo modelo.

Durante entrevista à Rádio Maristela, ele afirmou que a administração municipal ainda analisa o impacto financeiro da medida, mas considera que os benefícios poderão alcançar diferentes setores da sociedade.

“Meu entendimento é que o Tarifa Zero atende toda a comunidade. Beneficia estudantes, trabalhadores e também o comércio, já que reduz custos com vale-transporte e pode incentivar a utilização do transporte coletivo.”

Segundo Pozzi, a proposta faz parte de um conjunto de ações voltadas à mobilidade urbana que vêm sendo desenvolvidas pela administração municipal.

Ao fazer um balanço dos primeiros 18 meses de governo, o vice-prefeito destacou que muitos projetos dependem do cumprimento das etapas legais e burocráticas, o que acaba influenciando o ritmo de implantação das políticas públicas.

REFLEXOS NA ECONOMIA DA CIDADE

A gratuidade do transporte coletivo também pode gerar impactos indiretos sobre a economia local.

Sem o gasto diário com passagens, trabalhadores e estudantes passam a ter maior disponibilidade de renda para consumo em outros setores.

Além disso, empresas deixam de arcar com parte dos custos relacionados ao vale-transporte, fator citado tanto pelo prefeito quanto pelo vice-prefeito como um possível incentivo à geração de empregos.

Outro segmento que poderá sentir reflexos é o comércio, especialmente nas regiões mais afastadas do Centro, que tendem a registrar maior circulação de pessoas quando o deslocamento deixa de representar um custo adicional.

O EFEITO SOBRE O MERCADO IMOBILIÁRIO

A mobilidade urbana também influencia diretamente o mercado de imóveis.

Segundo o corretor e avaliador judicial Marcelo Koch do Carmo, existe hoje uma relação clara entre distância e valor dos aluguéis em Torres.

Imóveis localizados até cerca de dez quilômetros do Centro podem ser encontrados a partir de R$ 1.200 mensais.

Já aqueles situados em regiões centrais chegam a R$ 3.500 ou mais, dependendo do padrão, tamanho e mobiliário.

Historicamente, quem escolhe morar mais distante economiza no aluguel, mas precisa compensar essa vantagem pagando diariamente pelo deslocamento.

Com a tarifa zero, essa equação tende a mudar.

A redução do custo de transporte pode tornar bairros periféricos ainda mais atrativos para famílias e trabalhadores, diminuindo uma das principais desvantagens de morar longe do Centro.

Embora seja cedo para prever alterações concretas no mercado imobiliário, especialistas apontam que a mobilidade costuma exercer influência direta na valorização e na procura por imóveis.

AS EMENDAS APROVADAS PELA CÂMARA

Mesmo aprovado por unanimidade, o Projeto de Lei nº 35/2026 recebeu cinco emendas parlamentares que ainda serão analisadas pelo Executivo.

Entre as principais alterações estão:

necessidade de autorização da Câmara para criação dos subsídios destinados ao custeio da Tarifa Zero;

autorização legislativa para futuros aumentos desses subsídios;

manutenção do desconto de 50% na tarifa para estudantes;

inclusão de dispositivos relacionados à acessibilidade no sistema de transporte.

Caso alguma dessas emendas seja vetada, o texto poderá retornar ao Legislativo para nova apreciação.

Como a Câmara entra em recesso parlamentar, esse processo poderá se estender até agosto.

A META É COLOCAR O SISTEMA NAS RUAS ATÉ O VERÃO

Mesmo reconhecendo que ainda existem etapas legais pela frente, o prefeito Delci Dimer trabalha com um objetivo claro.

A expectativa da administração municipal é que o sistema de Tarifa Zero esteja em funcionamento antes da próxima temporada de verão, período em que Torres registra aumento significativo da população e da demanda por transporte coletivo.

Se o cronograma for cumprido, Torres poderá se tornar uma das primeiras cidades do Litoral Norte gaúcho a oferecer transporte coletivo urbano totalmente gratuito.