Impulsionado pela busca por qualidade de vida e investimentos seguros, o mercado imobiliário, com cerca de 500 projetos aprovados entre 2024 e 2025, exige planejamento para garantir infraestrutura e serviços públicos compatíveis com a expansão.

Entre falésias, mar aberto e o encontro do Rio Mampituba com o Atlântico, Torres vive um momento decisivo em sua história urbana. A cidade de cerca de 42 mil habitantes do litoral norte gaúcho tornou-se, ao mesmo tempo, destino turístico consolidado e polo imobiliário em plena expansão. Dados da DWV, plataforma que conecta incorporadoras e corretores de imóveis, impulsionando o fechamento de negócios, apontam que o município liderou a valorização imobiliária nacional em 2025, com crescimento médio de 56,31% no valor dos imóveis, superando cidades tradicionalmente aquecidas do país (Fortaleza/CE, 45,77%, Maringá/PR, 42,26%, Itapema/SC, 33,11%, Balneário Camboriú/SC, 32,66%).
O avanço não é apenas estatístico. Ele se materializa em guindastes no horizonte, novos empreendimentos e uma mudança gradual no perfil de quem chega. Menos veranistas ocasionais e mais moradores permanentes e investidores de longo prazo.
Para Ramon Biasi Krás, presidente da Associação das Incorporadoras e Construtoras de Torres (Actor), o crescimento recente resulta da convergência de fatores estruturais.
“O crescimento dos últimos anos foi excelente e se apoia em três pilares: as belezas naturais, as melhorias promovidas pelo poder público e a qualidade das obras realizadas pelas empresas locais”, afirma.
Segundo ele, a procura por imóveis permanece superior à oferta. “A quantidade de pessoas que desejam comprar imóveis em Torres é tão alta ou até maior que o que se constrói aqui, garantindo continuidade do crescimento nos próximos anos.”
EXPANSÃO

Dados da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo de Torres evidenciam a intensidade recente do setor da construção civil no município. Em 2024, foram aprovados 294 projetos, somando 1.161 unidades habitacionais. Já em 2025, mesmo com a redução no número de alvarás emitidos, foram autorizados 195 projetos, equivalentes a 904 unidades habitacionais. Cabe destacar que a aprovação não implica início imediato das obras, já que as construtoras têm prazo de até um ano para dar início aos empreendimentos após a emissão do alvará. Somados, os dois últimos anos registram 489 projetos habitacionais aprovados, ultrapassando a marca de 2 mil novas unidades previstas.
A análise exige cuidado. Edifícios multifamiliares concentram centenas de apartamentos em um único alvará, o que demonstra a intensificação do adensamento urbano.
Construtoras locais confirmam o ritmo acelerado. A R Dimer entregou 360 unidades habitacionais nos últimos cinco anos e projeta chegar a 484 no próximo ciclo. Rodrigo Dimer atribui o fenômeno à mudança de percepção sobre a cidade.
“Torres deixou de ser apenas um destino de veraneio. Hoje é vista como cidade para viver, investir e construir história”, diz. A limitação territorial, cercada por mar, morros e áreas de preservação, também impulsiona os preços. “Quando o mercado entende que o produto é finito e altamente desejado, a valorização acontece.”
A construtora Monte Bello segue trajetória semelhante, com 306 unidades entregues em cinco anos e previsão de mais 300 até o fim da década. Para o proprietário Laurinei Monteiro Rodrigues, o mercado amadureceu. “O comprador está mais atento à localização, ao padrão construtivo e à qualidade dos projetos.”
A Design Incorporadora, segundo o proprietário Juliano Justo, projeta um crescimento de 30% no volume de obras nos próximos cinco anos. Em termos financeiros, a expectativa é de expansão de 150%. Para o período, a incorporadora prevê a entrega de 173 unidades habitacionais.
QUEM ESTÁ COMPRANDO

No campo da comercialização, a transformação é igualmente visível. O corretor e empresário Jeferson Selau, da Nossa Casa Imóveis, com 25 anos de atuação no setor, afirma que a cidade passou por uma virada estrutural desde os anos 2000, acelerada após a pandemia.
“O mercado imobiliário valorizou em média 20% ao ano nos últimos cinco anos. Alguns produtos, como terrenos em condomínios fechados, chegaram a valorizar 200%”, explica.
A maior parte dos compradores vem da Serra Gaúcha e da Região Metropolitana de Porto Alegre, cerca de 90% das vendas. Predominam empresários e profissionais liberais acima dos 40 anos, com ensino superior e renda elevada.
Mesmo assim, a cidade ainda convive com forte sazonalidade. Aproximadamente 65% dos imóveis permanecem desocupados na baixa temporada, embora a ocupação fora do verão tenha crescido significativamente desde a pandemia.
INFRAESTRUTURA

O avanço imobiliário traz uma pergunta inevitável. A infraestrutura urbana (energia, saneamento e água) acompanha o ritmo?
Na área energética, investimentos têm sido robustos. Desde 2021, a rede elétrica de Torres recebeu mais de R$ 56 milhões, com substituição de 3,1 mil postes, instalação de 170 transformadores e expansão de 95 quilômetros de rede. Segundo a concessionária CEEE Equatorial, os indicadores de interrupção de energia caíram até 48% entre 2024 e 2025. O reforço se torna essencial no verão, quando a população pode multiplicar-se por cinco.
Já no saneamento, o desafio é ainda mais sensível. A Corsan afirma que o crescimento imobiliário pressiona especialmente o sistema de esgotamento sanitário, exigindo investimentos contínuos. Em 2025, foram aplicados R$ 44 milhões na ampliação da capacidade de coleta e tratamento, incluindo melhorias na Estação de Tratamento de Esgoto Mampituba e implantação de novas redes.
A companhia destaca que o consumo de água cresce cerca de 46% na alta temporada, exigindo planejamento permanente para evitar colapsos operacionais.
“O crescimento acelerado aumenta a pressão sobre os sistemas, por isso os investimentos estruturantes são essenciais para garantir expansão ordenada”, informou a concessionária.
CRESCER SEM PERDER IDENTIDADE

Apesar do otimismo do mercado, empresários e especialistas reconhecem riscos. Para Rodrigo Dimer, o maior deles é a descaracterização urbana.
“O maior risco é perder a identidade de Torres. Não somos, e nem queremos ser, Balneário Camboriú. O desafio é equilibrar crescimento e preservação.”
A preocupação também aparece na visão da Monte Bello, que aponta planejamento urbano, mobilidade e preservação ambiental como pontos críticos para a próxima década.
Ramon Krás reforça que o Plano Diretor tem papel central nesse equilíbrio. “Hoje a tecnologia permite que as cidades cresçam preservando a natureza. Torres precisa manter sua qualidade de vida, que é justamente o que atrai moradores e turistas.”
Juliano Justo da Design Incorporadora afirma que o crescimento do mercado imobiliário em Torres pode ser uma oportunidade para promover o desenvolvimento sustentável. “Empreendimentos em Torres estão adotando práticas sustentáveis, como: uso de materiais ecológicos e reciclados; sistemas de energia renovável, como painéis solares; gestão eficiente de resíduos e água e preservação de áreas verdes e paisagismo nativo. Com planejamento urbano consciente e práticas responsáveis, é possível conciliar crescimento econômico e preservação ambiental”, explica Juliano.
ECONOMIA LOCAL EM TRANSFORMAÇÃO
O impacto econômico já é mensurável. Segundo a Actor, cerca de 20% dos trabalhadores formais da cidade estão diretamente ligados à construção civil, número que cresce ao incluir corretores, autônomos e setores indiretos como móveis, comércio e serviços.
Esse ciclo cria um efeito multiplicador. Novos empreendimentos fortalecem comércio, turismo e serviços urbanos, ampliando a arrecadação e estimulando novos investimentos.
Mas Jeferson Selau alerta para gargalos que acompanham o crescimento. “A cidade precisa investir mais em saúde e em turismo durante os 12 meses do ano. O hospital já opera acima da capacidade.”
POPULAÇÃO PEDE ATENÇÃO
A sociedade civil também tem se mobilizado diante do avanço da construção civil em Torres. No dia 22 de fevereiro, mais de 400 pessoas participaram de um ato público no Parque Estadual José Lutzenberger, o Parque da Guarita, organizado pelo Movimento Unificado em Defesa do Litoral Norte Gaúcho (MOVLN/RS). A manifestação reuniu moradores, pesquisadores, pescadores, lideranças indígenas e entidades ambientais preocupados com a possibilidade de edificações de até 100 metros de altura no entorno da unidade de conservação, área integrante do Geoparque Mundial da UNESCO – Caminhos dos Cânions do Sul.
O movimento alerta para possíveis impactos paisagísticos, ambientais e sociais provocados pela verticalização e defende que o crescimento urbano ocorra com planejamento técnico e respeito à legislação ambiental. Durante o ato, os participantes realizaram um abraço simbólico ao parque, reforçando o debate sobre os limites do desenvolvimento urbano e a preservação do patrimônio natural de Torres.
EXPANSÃO E RESPONSABILIDADE
Torres vive um momento decisivo. A combinação entre escassez territorial, valorização acelerada e demanda crescente indica continuidade da expansão imobiliária nas próximas décadas. Ao mesmo tempo, meio-ambiente, energia, saneamento, mobilidade urbana e serviços públicos tornam-se variáveis estratégicas para sustentar o avanço. A equação é delicada. Crescer sem comprometer aquilo que tornou a cidade desejada.
Entre prédios que surgem e o som constante do mar, Torres parece caminhar sobre uma linha fina, onde desenvolvimento e preservação precisam avançar juntos. Se conseguir manter esse equilíbrio, poderá consolidar não apenas um ciclo imobiliário bem-sucedido, mas um modelo de crescimento urbano raro no litoral brasileiro. Aquele em que prosperidade e qualidade de vida não competem, mas coexistem.