Home EspecialVerão abaixo do esperado em Torres, um destino que encanta mas ainda não retém

Verão abaixo do esperado em Torres, um destino que encanta mas ainda não retém

por Melissa Maciel

Empresários, trabalhadores da praia e turistas apontam avanços e gargalos de uma temporada marcada pela cautela e pela necessidade de estratégia de longo prazo.

Crédito: GABRIEL ZAPAROLLI

O verão em Torres, no Litoral Norte gaúcho, não se deixa resumir em uma palavra. Há manhãs em que o mar se apresenta em tons turquesa, a areia clara reflete o sol e os paredões rochosos emolduram a cidade como uma paisagem caribenha improvável no Sul do país. Em outros dias, o vento sul, a chuva persistente e o frio inesperado impõem silêncio às praias e frustração ao comércio. Esse vaivém climático está marcando a temporada 2025/2026 e ajudou a frear expectativas que, no papel, pareciam promissoras.

A cidade que se apresenta como porta de entrada do Brasil para quem vem da Argentina e do Uruguai, principais países emissores de turistas para o município, segue encantando quem chega, mas ainda enfrenta obstáculos para transformar seu potencial em desenvolvimento turístico contínuo, sustentável e economicamente sólido.

A expectativa pelo cenário nacional

O Brasil encerrou 2025 com um recorde histórico de mais de 9,28 milhões de turistas estrangeiros, crescimento de cerca de 37% em relação a 2024, com forte expansão nas receitas turísticas e aumento do gasto médio dos visitantes. Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai, Estados Unidos e países europeus lideraram os fluxos. Os números nacionais alimentaram a projeção de um verão aquecido também no Rio Grande do Sul. Em Torres, porém, o movimento ficou aquém do esperado.

Para a presidente do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes do Litoral Norte do RS, Ivone Ferraz, a temporada foi impactada por um conjunto de fatores. A instabilidade climática afastou reservas, enquanto o aumento de custos de transporte e taxas na Argentina reduziu drasticamente a saída de turistas do país vizinho. A projeção de crescimento de 25% simplesmente não se confirmou. Houve cancelamentos, devolução de valores e uma sensação generalizada de retração, especialmente no início da temporada.

A percepção de quem trabalha na areia

Na linha de frente do turismo, o contato diário com o visitante permite uma avaliação mais precisa da temporada. Javier Benites, 49 anos, natural de Paysandú, no Uruguai, é responsável por um quiosque de aluguel de guarda-sóis e cadeiras na faixa de areia da Praia Grande. Frequentador de Torres há 24 anos, está no segundo verão trabalhando na cidade, onde chegou em novembro de 2025 e deve permanecer até junho deste ano.

Com experiência profissional na área administrativa, Javier estaca a qualidade de vida, a liberdade e o acolhimento como diferenciais do município. Morando na região das Quatro Praças, afirma que Torres passou por uma transformação acelerada, com crescimento imobiliário, ampliação dos serviços e fortalecimento do perfil comercial, mantendo-se atrativa para turistas uruguaios e argentinos que buscam segurança e organização.

Entre os pontos positivos desta temporada, ele ressalta a limpeza das praias, especialmente após o Réveillon, com a faixa de areia limpa já nas primeiras horas da manhã. Por outro lado, aponta a necessidade de maior fiscalização de trabalhadores informais, ampliação de lixeiras e adoção de coleta noturna. Também observa falhas pontuais na mobilidade e no estacionamento em datas de pico, mas avalia de forma positiva a organização geral e reconhece avanços em relação a anos anteriores, destacando o potencial de Torres como destino turístico em consolidação.

O olhar de quem descobre Torres

Entre os turistas estrangeiros, a percepção sobre Torres permanece amplamente positiva, especialmente entre os que chegam pela primeira vez. As argentinas Giuliana Taborelli, 23 anos, e Gianela Taborelli, 19, que já visitaram a cidade em outras temporadas, vieram acompanhadas das primas Aileen Coulleri, 26, e Valentina Coulleri, 20, estreantes no destino. A escolha foi pela proximidade com Passo de los Libres, assim como o desejo de evitar viagens longas. Depois de temporadas anteriores em destinos mais distantes, como Florianópolis, Torres apareceu como uma alternativa mais próxima e acessível.

O grupo destaca a combinação que, para elas, diferencia a cidade de outras praias do Sul. Torres tem estrutura urbana, centro comercial ativo e praias consideradas “muy lindas”, além de concentrar tudo a distâncias curtas. A facilidade de deslocamento e a sensação de estar em uma cidade maior, e não apenas em um balneário estritamente familiar, aparecem como pontos fortes. Entre as experiências que mais chamaram atenção estão as atividades de aventura, como o parapente e o balonismo, atrações que, segundo elas, não são tão comuns em outras praias. O interesse em voar de balão, ainda nos planos da viagem, reforça a percepção de Torres como um destino que vai além do sol e mar, agregando experiências que dialogam com um público jovem e urbano.

No entanto, mesmo encantadas com a paisagem e a infraestrutura, as jovens apontam um ponto de melhoria, a vida noturna. Para elas, faltam opções mais intensas e diversificadas voltadas ao público jovem, especialmente durante a semana. Reconhecem o perfil mais calmo e tranquilo da cidade, com maior movimento nos fins de semana, mas avaliam que uma agenda noturna mais “juvenil” poderia estimular permanências mais longas e retornos frequentes.

Entre a expectativa e a cautela

Com décadas de experiência no setor de gastronomia em Torres, o empresário e sócio-proprietário do Schatel Restaurante, no calçadão da Praia Grande, Evanir Pacheco Schardosin, o Schardô, traduz em números e comportamento a mudança no perfil do turista estrangeiro, especialmente o argentino e uruguaio. Segundo ele, ficou no passado a previsibilidade que marcava a temporada de verão, quando, até poucos anos atrás, era possível identificar datas quase fixas para a chegada em massa dos visitantes. Hoje, esse fluxo é mais difuso, distribuído entre janeiro e março, o que exige outro tipo de planejamento do empresariado local.

Na comparação direta, Schardô é taxativo. No início desta temporada, o movimento ficou cerca de 60% abaixo do registrado no mesmo período do ano passado. A frustração foi potencializada por uma expectativa inflada no mercado, alimentada por informações de que hotéis estariam praticamente tomados por reservas de argentinos. “Eu sou muito realista, prefiro esperar para ver”, resume, ao defender uma postura mais conservadora diante de projeções excessivamente otimistas.

Apesar da queda, o empresário ressalta que o turista estrangeiro segue sendo peça-chave para a economia noturna da cidade. Enquanto o público brasileiro concentra sua presença nos fins de semana, é o argentino que sustenta bares e restaurantes de segunda a quinta-feira, especialmente à noite.

Para ele, este verão ainda está longe de representar a retomada dos anos áureos do turismo argentino e uruguaio no Litoral Norte. Parte desse público, observa, segue optando por Santa Catarina ou por destinos mais distantes, enquanto Torres acaba funcionando como ponto de parada estratégica: um local seguro, bonito e tranquilo para descanso, refeições e recuperação antes de seguir viagem.

O desafio de encantar para reter

A análise da Secretaria Municipal de Turismo de Torres indica que o principal desafio não está apenas em atrair visitantes, mas em qualificar a permanência. O secretário Gabriel de Mello reconhece a ausência de dados consolidados sobre o turismo internacional nesta temporada, lacuna que motivou a criação do Observatório do Turismo, voltado à sistematização de informações sobre nacionalidade, fluxo e consumo. Atualmente, o município depende de dados da Secretaria Estadual de Turismo e de postos de fronteira, o que limita análises mais precisas.

Do ponto de vista econômico, o impacto do turista estrangeiro é considerado altamente relevante. Segundo o secretário, trata-se de “dinheiro novo” que movimenta hospedagem, gastronomia, comércio, especialmente o vestuário, e serviços. Diferentemente de eventos pontuais, como Réveillon e Carnaval, que concentram público e geram pressão urbana, o visitante internacional distribui melhor o consumo ao longo da estadia. Mais de 90% realizam refeições ou lanches na rede local, ampliando o efeito econômico.

No âmbito institucional, a Secretaria de Turismo atua em articulação com a Secretaria Estadual de Turismo, InvestRS, Sebrae e Embratur na promoção internacional. A estratégia passa pelo reposicionamento de Torres como eixo de um roteiro integrado, explorando a condição de integrante do Geoparque Mundial da Unesco Caminhos dos Cânions do Sul, conectando litoral e serra. Esse movimento inseriu o município no radar do turismo internacional como Destino Emergente.

Embora os resultados mais expressivos sejam esperados no médio e longo prazo, a gestão já identifica sinais positivos, como a presença de grupos estrangeiros que passaram a incluir Torres em seus roteiros e o aumento do fluxo turístico fora da alta temporada. O próximo passo é ampliar a atuação ao longo do ano e aproximar operadores internacionais do trade local.

O futuro do turismo em Torres não depende apenas de sol pleno e mar calmo, mas de estratégia, constância e visão de longo prazo. Quem vem, aprova. Falta fazer com que mais gente venha, e fique.