Da promoção da saúde ao atendimento em situações de urgência, profissionais convivem diariamente com responsabilidade, pressão emocional, episódios de violência e a satisfação de transformar vidas por meio do cuidado
A enfermagem está presente em praticamente todos os momentos da vida da população. É o profissional que acolhe o paciente na Unidade Básica de Saúde, acompanha gestantes durante o pré-natal, orienta famílias, realiza consultas, coordena equipes, presta atendimento em situações de urgência e permanece ao lado das pessoas em alguns dos momentos mais difíceis de suas vidas. Embora seja uma das profissões mais importantes dentro do sistema de saúde, seu trabalho ainda é pouco compreendido por parte da sociedade e cercado por desafios que vão muito além da assistência técnica.
Nos últimos anos, a enfermagem conquistou maior autonomia profissional, ampliou sua participação na condução dos atendimentos e passou a assumir responsabilidades que antes eram atribuídas exclusivamente aos médicos. Ao mesmo tempo, cresceu a pressão sobre esses profissionais, que precisam conciliar conhecimento científico, acolhimento humanizado e a necessidade de administrar conflitos, cobranças e, infelizmente, situações de violência.
Para entender essa realidade, a reportagem conversou com a enfermeira Renata Meirelles, que atua há dez anos na Estratégia de Saúde da Família (ESF) São Francisco, em Torres. Também buscou ouvir profissionais do Hospital Nossa Senhora dos Navegantes. No entanto, a instituição, por meio da mantenedora IB Saúde, não autorizou entrevistas com seus colaboradores e encaminhou apenas uma nota oficial sobre o tema. A Secretaria Municipal de Saúde também apresentou as medidas adotadas para ampliar a segurança dos servidores da rede pública.
UMA PROFISSÃO CONSTRUÍDA PELO VÍNCULO COM A COMUNIDADE
Há dez anos, Renata Meirelles chega diariamente à Estratégia de Saúde da Família São Francisco sabendo que encontrará muito mais do que consultas e procedimentos. A unidade atende moradores dos bairros São Francisco e Guarita, uma população que, em sua maioria, vive em situação de vulnerabilidade social.
Ao longo desse período, ela acompanhou famílias inteiras, participou de pré-natais, viu crianças nascerem e crescerem e criou uma relação de confiança que dificilmente seria construída em outro modelo de atendimento.
“Existem crianças na comunidade que acompanhei desde o pré-natal e hoje já estão com quase dez anos. Isso não troco por nada”, conta.
Para ela, um dos maiores patrimônios da Estratégia de Saúde da Família é justamente esse vínculo permanente entre profissionais e comunidade.
“Tenho um carinho muito grande pela população que atendemos. Eles retribuem cada acolhida, cada momento em que, muitas vezes, precisavam apenas ser ouvidos.”
DA PREVENÇÃO AO TRATAMENTO
O principal objetivo da Estratégia de Saúde da Família é trabalhar a promoção da saúde e prevenir doenças antes que elas se agravem. Na prática, entretanto, esse planejamento frequentemente esbarra na cultura de procurar atendimento apenas quando o problema já está instalado.
“Nosso trabalho é focado na promoção e prevenção da saúde, mas, na maioria das vezes, acabamos sendo uma instituição curativa, porque a população ainda tem muita resistência em prevenir.”
Segundo Renata, grande parte da rotina consiste justamente em orientar a população sobre hábitos saudáveis, vacinação, acompanhamento de doenças crônicas e consultas preventivas.
É um trabalho silencioso, diário e que nem sempre produz resultados imediatos, mas que faz diferença na redução de doenças e internações.
A ENFERMAGEM GANHOU AUTONOMIA, MAS AINDA ENFRENTA RESISTÊNCIA
Quem procura uma Unidade Básica de Saúde muitas vezes acredita que somente o médico pode resolver seu problema.
No entanto, essa realidade mudou.
Hoje, enfermeiros possuem autonomia para realizar consultas, avaliar pacientes, solicitar exames previstos em protocolos, prescrever medicamentos e indicar tratamentos em diversas situações clínicas.
Mesmo assim, Renata afirma que ainda existe uma cultura muito centrada na figura do médico.
“Hoje a enfermagem tem autonomia para avaliar o paciente e, conforme os protocolos, prescrever e indicar tratamento. Mas ainda é um trabalho diário de educação em saúde, porque a população continua muito médico-centralizada.”
Essa percepção faz com que muitos pacientes insistam em consultas médicas, mesmo quando sua necessidade pode ser resolvida integralmente pelo atendimento de enfermagem.
NEM SEMPRE O PACIENTE PRECISA DO QUE PROCURA
Explicar que um exame ou uma consulta não são necessários naquele momento talvez seja um dos maiores desafios enfrentados pelos profissionais da Atenção Primária.
Segundo Renata, muitas pessoas chegam à unidade acreditando que sairão com uma solicitação de exames ou encaminhamento para especialistas.
Entretanto, a assistência em saúde é organizada conforme critérios técnicos e de prioridade clínica.
“Nem sempre o que o paciente busca na unidade é o que ele realmente precisa.”
Ela explica que existem pacientes estáveis, sem necessidade imediata de exames ou consultas, enquanto outras pessoas apresentam condições muito mais urgentes.
“Alguns dizem: ‘é meu direito’, ‘eu pago meus impostos’. Mas não se trata apenas de direitos. Também existem deveres. O paciente precisa fazer a sua parte e participar do tratamento.”
Para a enfermeira, o cuidado acontece quando há compromisso dos dois lados.
“Estamos aqui para cuidar, mas existem duas vias nesse caminho: o papel da enfermeira e o papel do paciente em se comprometer com esse processo.”
QUANDO ACOLHER SIGNIFICA APENAS OUVIR
Nem sempre um atendimento termina com uma receita médica ou um procedimento.
Em muitos casos, o paciente procura a unidade carregando medos, inseguranças e sofrimento emocional.
Nessas situações, a escuta torna-se uma ferramenta tão importante quanto qualquer medicamento.
“Às vezes eles precisam apenas ser ouvidos sem julgamento.”
Segundo Renata, uma conversa acolhedora pode transformar completamente a experiência daquele paciente.
“Às vezes só precisam ouvir que vai ficar tudo bem.”
Esse cuidado, muitas vezes invisível para quem está de fora, faz parte da essência da enfermagem.
A VIOLÊNCIA TAMBÉM FAZ PARTE DA ROTINA
Apesar do reconhecimento demonstrado por grande parte da população, os episódios de violência contra profissionais da saúde se tornaram uma preocupação crescente.
Renata conta que já enfrentou ameaças, gritos e agressões verbais durante o trabalho.
“Nunca fui agredida fisicamente, mas já passei por situações de ameaças e agressões verbais.”
Ela afirma que colegas viveram experiências ainda mais graves.
“Tive colegas que foram agredidos fisicamente. Isso acaba desestabilizando toda a equipe e traz muitos questionamentos sobre o nosso papel na sociedade e sobre a desvalorização da enfermagem.”
Para quem dedica a vida ao cuidado das pessoas, enfrentar esse tipo de situação provoca um impacto emocional que permanece mesmo após o encerramento do atendimento.
A PRESSÃO NOS SERVIÇOS DE URGÊNCIA
Se nas unidades de saúde o vínculo com a comunidade é uma característica marcante, nos serviços de pronto atendimento o cenário é diferente.
Diariamente, profissionais recebem pacientes em situações de urgência e emergência, exigindo decisões rápidas, responsabilidade técnica e equilíbrio emocional.
Além do atendimento clínico, as equipes lidam com familiares angustiados, pessoas em sofrimento intenso e situações que frequentemente elevam o nível de tensão dentro das unidades.
Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, essa realidade exige investimentos permanentes na proteção dos servidores e dos usuários.
Atualmente, as unidades municipais contam com guarda patrimonial e sistema de videomonitoramento com reconhecimento facial, recursos que auxiliam na preservação da ordem e na segurança dos ambientes de atendimento.
A Secretaria afirma que essas medidas fazem parte de uma política voltada à valorização dos profissionais e à construção de ambientes mais seguros, humanizados e acolhedores para trabalhadores e pacientes.
A POSIÇÃO DO HOSPITAL NOSSA SENHORA DOS NAVEGANTES
Com o objetivo de ampliar a reportagem e apresentar também a realidade vivida pelos profissionais da assistência hospitalar, a equipe buscou entrevistar colaboradores do Hospital Nossa Senhora dos Navegantes.
No entanto, a mantenedora IB Saúde informou que não autorizaria entrevistas com os profissionais.
Em nota oficial, o hospital reafirmou seu compromisso com o bem-estar, a segurança e a valorização dos colaboradores, destacando investimentos permanentes em capacitação, protocolos técnicos e assistenciais, apoio psicológico e fortalecimento de uma cultura organizacional baseada no respeito, na ética e no cuidado com as pessoas.
A instituição também informou que repudia qualquer forma de violência física ou verbal dentro ou fora do ambiente hospitalar e que atua preventivamente para garantir segurança tanto aos profissionais quanto aos pacientes e familiares.
MUITO ALÉM DE UMA PROFISSÃO
Quem observa a rotina da enfermagem apenas durante uma consulta dificilmente consegue enxergar tudo o que acontece antes e depois daquele atendimento.
São horas dedicadas ao planejamento das ações de saúde, organização das equipes, visitas domiciliares, educação em saúde, acolhimento de famílias, acompanhamento de doenças crônicas, vacinação, curativos, atendimentos de urgência e uma infinidade de decisões que impactam diretamente a vida das pessoas.
Apesar das dificuldades, Renata afirma que jamais perdeu o entusiasmo pela profissão.
O motivo está justamente na relação construída com a comunidade.
“O carinho que recebo das pessoas faz tudo valer a pena.”
Essa talvez seja a melhor definição da enfermagem.
Uma profissão que exige conhecimento técnico, equilíbrio emocional e enorme responsabilidade, mas que encontra no cuidado, na escuta e na construção de vínculos a razão para continuar fazendo a diferença na vida de milhares de pessoas todos os dias.