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Nos bastidores da Igreja

por Nicole Corrêa Roese

Vivemos uma semana tensa nos bastidores da Igreja Católica Romana. Bastidores porque acompanhamos um debate que não repercute diretamente no cotidiano dos fiéis católicos. Antes, ecoa nos espaços hierárquicos por se tratar de um embate de poder fundamentado em teorias doutrinárias.

Desde as determinações e orientações do Concílio Vaticano II, que envolveu mais de cinco mil lideranças católicas por um período superior a três anos, surgiu um pequeno grupo de resistência ao processo de abertura promovido. O termo aggiornamento, então adotado, expressava a ideia de uma “Igreja povo de Deus”. Mais aberta e voltada para as questões contemporâneas.

O grupo “rebelde”, inspirado na ideia de algumas poucas pessoas, criou um movimento que ficou identificado como Fraternidade Sacerdotal São Pio X. E a questão volta à tona com a ordenação de quatro novos bispos sem o aval do Vaticano, sede da Igreja Católica sob a orientação do Papa, símbolo da unidade universal.

Não pretendo aqui entrar no mérito do debate doutrinário, algo muito mais amplo. Mas ater-me no processo metodológico desta rebeldia.

Penso que todos os grandes grupos religiosos necessariamente passam por processos de aggiornamento como recurso indispensável de manutenção dos princípios. Tempos mudam, pessoas mudam e os alicerces precisam sustentar novas estruturas. Não se trata de ruptura de princípios mas de manutenção dos mesmos.  E quando isso acontece de forma coletiva e democrática, em processos de discussão e debates, como foi o caso do Concílio, trata-se de algo legítimo. A possibilidade do pensar diferente também esteve presente e teve seu espaço. Enriqueceu o processo.

Pessoas ou grupos isolados reivindicando o título de guardiães da verdade são ensaios de ditaduras ideológicas.

Quando alguém é capaz de te acordar na escuridão da madrugada para autoproclamar-se guardião da luz, desconfie. É uma faísca que não se sustenta.