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Amar carregando a dor do outro

por Nicole Corrêa Roese

Por ocasião do XXXIV Dia Mundial do Doente, como acontece todos os anos, o Papa Leão escreveu sua mensagem, que resumo aqui. Ele se serve da parábola do Bom Samaritano: quis propor novamente essa imagem, sempre atual e necessária, a fim de redescobrirmos a beleza da caridade e a dimensão social da compaixão, e chamar a atenção para os necessitados e para os que sofrem, como são os doentes.

Ele mesmo afirma que propõe a reflexão sobre essa passagem bíblica com a chave hermenêutica da Encíclica Fratelli tutti, na qual a compaixão e a misericórdia para com os necessitados não se reduzem a um mero esforço individual, mas realizam-se na relação: com o irmão necessitado, com aqueles que cuidam dele e, fundamentalmente, com Deus, que nos oferece o seu amor.

Jesus não ensina quem é o próximo, mas como ser próximo, ou seja, como nos tornarmos nós mesmos próximos. Ninguém é próximo de outro enquanto não se aproxima voluntariamente dele. Por isso, fez-se próximo aquele que teve misericórdia. O amor não é passivo, mas vai ao encontro do outro; ser próximo não depende da proximidade física ou social, mas da decisão de amar.

Por isso, o cristão faz-se próximo daquele que sofre, seguindo o exemplo de Cristo, o verdadeiro Samaritano divino que se aproximou da humanidade ferida. Não são meros gestos de filantropia, mas sinais nos quais se pode perceber que a participação pessoal nos sofrimentos do outro implica dar-se a si mesmo, supõe ir mais além de satisfazer necessidades, para chegar ao ponto de a nossa pessoa ser parte do dom.

O Papa testemunha: na minha experiência como missionário e bispo no Peru, eu mesmo constatei como muitas pessoas partilham a misericórdia e a compaixão ao estilo do samaritano e do estalajadeiro. Familiares, vizinhos, profissionais e agentes pastorais da saúde e tantos outros que param, se aproximam, curam, carregam, acompanham e oferecem o que têm, dando à compaixão uma dimensão social. Esta experiência, que se realiza num entrelaçamento de relações, ultrapassa o mero compromisso individual.

O amor ao próximo, quando sincero, contagia e se torna visível na comunidade. Deus nunca ninguém viu; se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu amor chega à perfeição em nós. Quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele.

O verdadeiro remédio para as feridas da humanidade é um estilo de vida baseado no amor fraterno, que tem as suas raízes no amor de Deus. Desejo vivamente que nunca falte no nosso estilo de vida cristão esta dimensão fraterna, “samaritana”, inclusiva, corajosa, comprometida e solidária, que tem a sua raiz mais íntima na nossa união com Deus, na fé em Jesus Cristo. Inflamados por esse amor divino, poderemos realmente entregar-nos em favor de todos os que sofrem, especialmente dos nossos irmãos doentes, idosos e aflitos.