Enquanto o país se comove com os casos Orelha e Caramelo, em Florianópolis, o Litoral Norte gaúcho e o Sul catarinense seguem convivendo, longe dos holofotes, com abandono e envenenamento de animais.

A história dos cães Orelha e Caramelo, torturados na Praia Brava, em Florianópolis, segue mobilizando o país. Houve indignação, manifestações estão sendo planejadas para os próximos dias e a pauta não sai das redes sociais, com pedidos de justiça e discursos inflamados contra as crueldades. O choque foi legítimo. Mas os casos Orelha e Caramelo também funcionam como um espelho desconfortável, pois revelam uma sociedade que reage apenas quando a barbárie ganha repercussão nacional, mas fecha os olhos para a violência cotidiana que acontece no seu bairro, na sua região.
Em muitos municípios do Litoral Norte gaúcho e do Sul catarinense, como em Torres/RS e Passo de Torres/SC, seja nos balneários à beira-mar ou no interior, inúmeros Orelhas e Caramelos seguem sendo envenenados, deixados à própria sorte, morrendo de fome e sede, atropelados ou simplesmente descartados às margens de estradas por supostos “tutores”, oriundos de municípios vizinhos e até por veranistas. Sem câmeras, sem hashtags, sem comoção.
VENENO E ABANDONO
A confirmação de envenenamento em série de cães na comunidade de Areia Grande, em Torres/RS, e o aumento expressivo de abandonos ao longo da recém-pavimentada rodovia Caminhos do Mar, em Passo de Torres/SC, expõem faces distintas de um mesmo problema estrutural, a crueldade contra animais segue presente, recorrente e, muitas vezes, invisibilizada na região.
Em Torres, o laudo toxicológico dos cães mortos por envenenamento na comunidade de Areia Grande confirmou a presença de Cumarina, Arsênio e Chumbo nas amostras analisadas. O resultado demonstra a suspeita de uma ação criminosa deliberada e em série, que causa medo e indignação.
O caso ocorreu no início de junho de 2025 e, em menos de um mês, 19 cães morreram na localidade. O crime seguiu sempre o mesmo padrão: sacolas com carne envenenada eram arremessadas para dentro de pátios e terrenos de residências. A divulgação do laudo, anexado a um memorando da Secretaria Municipal do Meio Ambiente e Urbanismo, aumenta a pressão por respostas e acelera a necessidade de avanço nas investigações.

A poucos quilômetros dali, em Passo de Torres/SC, a crueldade se manifesta de outra forma, mas com consequências igualmente severas. A recém-pavimentada rodovia Caminhos do Mar, que liga a BR-101 ao balneário Bellatorres, passando pela comunidade de Curralinhos, tornou-se um novo corredor de abandono de animais.
Antes do asfalto, a estrada de chão dificultava a fuga de quem abandonava cães. Muitos animais corriam atrás dos veículos e acabavam chegando feridos aos balneários. Com a pavimentação, o abandono passou a ser rápido, silencioso e quase impossível de coibir. O acelerador substituiu qualquer resquício de responsabilidade.
Casos distintos, métodos diferentes, mas uma mesma lógica de violência, impunidade e descaso que segue avançando pela região, com ou sem repercussão, com ou sem câmeras, com ou sem comoção.
A QUEM RECORRER
Foi nesse cenário que um ouvinte da Rádio Maristela, que prefere não se identificar, procurou a reportagem no dia 30 de janeiro de 2026. Ele pedala diariamente ao amanhecer e, por dias, observou um cão desorientado às margens da rodovia Caminhos do Mar, a cerca de 1,6 km do posto de combustível de Bellatorres. Magro e arisco, chegou a pensar que poderia ser uma fêmea com filhotes, pois permanecia no mesmo local. Ele levou água e ração, tentou ajuda e buscou a Prefeitura. O que encontrou foi um jogo de empurra, com um setor transferindo a responsabilidade para o outro. Nenhuma ação concreta, nenhum resgate, nenhuma resposta efetiva. O cão não foi mais visto.
A reportagem do Jornal do Mar procurou o secretário municipal de Meio Ambiente, Juliano Bugallo Borba, e enviou questionamentos formais. Até o fechamento desta reportagem, não houve retorno. O espaço segue aberto.
PROTETORAS EM AÇÃO

A reportagem entrou em contato com duas protetoras de animais que residem em Passo de Torres, Juliana e Alessandra. Elas atendem a pedidos de socorro de forma voluntária, sem qualquer ajuda de custo para atendimento veterinário, ração ou castração. Movidas pelo compromisso com a causa animal, recorrem a doações de pessoas sensibilizadas com os casos de crueldade que chegam até elas.
Ao tomarem conhecimento do cão desorientado na rodovia, saíram em busca do animal. Em um primeiro momento, acreditaram tê-lo encontrado, mas perceberam que se tratava de outro caso, igualmente dramático. Era uma fêmea em estado grave de saúde, posteriormente diagnosticada em clínica veterinária como vítima de envenenamento.
Por meio da rede de apoio à causa animal, foi possível identificar o animal como a cadela Bella, um cão comunitário cuidado por moradores do balneário Pérola. Bella carrega uma história que impressiona: esta foi a quarta vez em que o animal foi vítima de envenenamento, sem nunca ter encontrado um lar definitivo por meio da adoção.
O cão citado no início desta reportagem ainda não foi localizado. Bella, por outro lado, teve a sorte de ser encontrada a tempo de receber tratamento, o que garantiu sua sobrevivência.
PROTETORAS NO LIMITE
A desensibilização, não apenas de adolescentes, como no caso do Orelha, mas de toda uma sociedade que descarta animais e é capaz de ir a manifestações como se não tivesse qualquer responsabilidade, é um sintoma grave de adoecimento social. A ausência de políticas públicas empurra a responsabilidade para quem já está no limite físico, emocional e financeiro.
Márcia Lírio, responsável pelo SOS Guardiões Urbanos, que mantém uma clínica em Passo de Torres/SC e uma unidade móvel com atuação em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, afirma que ainda há dificuldades na implementação de ações permanentes voltadas à causa animal.
Segundo ela, a responsabilidade legal é do poder público, porém o município não dispõe de efetivo, recursos ou planejamento adequados. A clínica, apesar de ser uma iniciativa privada, acaba sendo procurada para atender a muitos casos relacionados ao abandono, aos maus-tratos e ao controle populacional.
Para Márcia, os avanços ocorrem principalmente quando há mobilização da população, fiscalização e encaminhamento das situações aos órgãos competentes, como o Ministério Público. Ela avalia que a participação da sociedade é decisiva para que as políticas públicas avancem e se tornem efetivas.
Juliana Cardoso e Alle Robertha, protetoras voluntárias, carregam nos relatos a exaustão de quem vive numa linha de frente invisível. Juliana descreve Curralinhos como um foco histórico de abandono. Relata cães largados com mudanças, móveis e restos de casa. Animais atropelados pelos próprios donos ao tentar seguir o carro. Cães famintos, hoje castrados e vacinados, vivendo na rua porque não há para onde ir.
Ela alimenta, medica, vacina e cuida. Sofre ameaças, tem coleiras anti-pulgas roubadas, enfrenta conflitos com moradores e segue. “Eu só alimento para não morrerem de fome”, desabafa Juliana.
Alessandra abriga 11 cães resgatados de maus-tratos. Castra do próprio bolso. Atende emergências. Já apresentou projetos à Prefeitura, que aguarda respostas.
DENUNCIAR É UM ATO DE CIDADANIA
O caso Orelha não é exceção. É sintoma. Sintoma de uma sociedade que abandona cães, gatos e cavalos. Sintoma de um poder público que ainda trata a causa animal como pauta secundária. Sintoma de uma cultura que terceiriza a compaixão para voluntários exaustos. A legislação existe. O sofrimento continua. O silêncio também.
Diante da inércia, o caminho é claro, denunciar ao Ministério Público. Cada caso ignorado, cada animal abandonado, cada pedido sem resposta precisa ser formalizado. Não se trata de perseguição política, mas de cumprimento da lei e de defesa da vida. Enquanto a indignação se limitar às redes sociais, novos Orelhas continuarão surgindo e morrendo à beira das estradas de nossas cidades.
Para a reportagem, foi feita uma seleção de fotos de vários animais resgatados por protetores voluntários. No entanto, durante a produção e até o fechamento da matéria, novas imagens de cães abandonados foram recebidas, e continuam chegando.