Com previsão de inauguração no fim de 2026, a pavimentação da SC-290 transforma a Serra do Faxinal e amplia as perspectivas para o turismo, a economia, a mobilidade e a integração regional.

Durante décadas, a Serra do Faxinal foi obstáculo, passagem, paisagem e promessa. Para quem vive em Praia Grande, no Sul Catarinense, e nos municípios vizinhos, atravessar a serra significava enfrentar uma estrada estreita, marcada pela terra, pelas pedras, pelo relevo íngreme e pelas condições do tempo. Para quem olhava para o outro lado, havia a possibilidade de chegar à Serra Gaúcha e, por ela, ampliar as conexões comerciais, turísticas e humanas.
Agora, a paisagem está novamente em transformação. A pavimentação da Rodovia SC-290, Prefeito Ari Pedro Borges, no trecho entre Praia Grande e a divisa com o Rio Grande do Sul, chega à etapa final depois de décadas de expectativa. São 15,63 quilômetros de uma obra que envolve pavimentação, drenagem e estruturas de contenção em um dos trechos mais complexos da ligação entre o litoral catarinense e o planalto gaúcho. O investimento informado pelo Governo de Santa Catarina supera R$ 75 milhões.
A obra representa a possibilidade de uma nova dinâmica regional. Com a transformação da Serra do Faxinal, surge também uma questão que mobiliza prefeitos, empresários, moradores e usuários da rodovia: o que muda no restante da região quando a ligação entre o litoral catarinense e o planalto gaúcho estiver definitivamente pavimentada?
A resposta ainda está sendo construída. E ela passa por duas palavras que precisam caminhar juntas: desenvolvimento e planejamento.
UMA ANTIGA PASSAGEM
A história ajuda a dimensionar a transformação. Praia Grande começou a ser ocupada por diferentes grupos de colonizadores no final do século XIX. O histórico municipal do IBGE registra a chegada dos primeiros colonizadores por volta de 1890, em uma região marcada pelo Rio Mampituba e pela proximidade da Serra Geral. Durante décadas, a montanha foi, ao mesmo tempo, barreira natural e caminho de ligação.
O Arquivo Público do Estado de Santa Catarina guarda fotografias do antigo Departamento de Estradas de Rodagem (DER) que ajudam a recuperar esse período. O acervo registra a construção da estrada da Serra de Praia Grande, identificada como Serra do Faxinal e Caminho dos Cânyons. As imagens, catalogadas como da década de 1970, mostram máquinas abrindo passagem pelo relevo e uma estrada que começava a mudar a relação do município com a montanha.



Segundo o histórico de Praia Grande publicado pelo IBGE, a Serra do Faxinal foi finalmente aberta em 1980, facilitando o comércio com o Rio Grande do Sul por meio de Cambará do Sul.
A abertura marcou uma mudança econômica e territorial: o que antes representava dificuldade passou a significar conexão. Mais de quatro décadas depois, a região se prepara para um novo capítulo dessa história.
NOVO CAPÍTULO
Se a abertura da estrada, em 1980, aproximou Praia Grande da Serra Gaúcha, a pavimentação promete ampliar essa conexão em uma escala ainda maior.
A SC-290 é uma ligação estratégica entre o extremo sul de Santa Catarina e o Rio Grande do Sul. No lado catarinense, conecta Praia Grande e a região à BR-101. No lado gaúcho, abre caminho para Cambará do Sul e para a região dos cânions.
É essa posição que faz da obra algo maior que uma intervenção viária. Integrada ao Programa Estrada Boa, a pavimentação chega agora à reta final. Os trabalhos estão concentrados nos últimos 300 metros, junto ao Morro dos Cabritos, no alto da Serra do Faxinal. A previsão da Regional de Infraestrutura e Mobilidade do Sul catarinense é concluir a etapa até o final de 2026.

O trecho revela o desafio de construir em uma montanha. Inclinação, rochas, drenagem e estabilidade das encostas impõem soluções específicas à engenharia. O projeto inclui 16 pontos de contenção, barreiras de concreto e sinalização, em uma área de alta complexidade geológica e ambiental.
A Serra do Faxinal também integra o Geoparque Mundial da UNESCO Caminhos dos Cânions do Sul, território marcado por patrimônios naturais e culturais e pelo potencial do turismo sustentável.
Na Serra do Faxinal, a natureza não é apenas cenário. Ela determina o traçado, impõe limites à engenharia e, ao mesmo tempo, sustenta uma das principais vocações econômicas que a nova estrada pretende impulsionar: o turismo.
UMA NOVA ROTA
Para Paulo Francisco Pioner de Carvalho, proprietário da Pousada Colina da Serra, a transformação começa pela possibilidade de ampliar a circulação de pessoas.
Há 25 anos no turismo, ele acompanhou Praia Grande se tornar destino de visitantes de diferentes regiões do Brasil e também do exterior. Na avaliação dele, a pavimentação pode inaugurar uma nova fase.
“O impacto desta obra será um marco muito grande em todos os sentidos”, afirma. Para Paulo, os efeitos devem alcançar turismo, comércio e agricultura, além de aproximar os dois lados da divisa. Com um acesso mais seguro e previsível, a expectativa é de crescimento na hospedagem, na gastronomia, no artesanato, nos serviços de guias e nas atividades de aventura.
A experiência também ensinou ao empresário que crescimento exige cuidado. Quanto mais acessível fica a natureza, maior pode ser a pressão sobre ela. Por isso, ele defende planejamento conjunto entre poder público e os setores de turismo e meio ambiente.
O desafio está justamente nessa equação: fazer a estrada trazer visitantes, investimentos e oportunidades sem comprometer aquilo que os atrai. Na Serra do Faxinal, acesso e preservação precisarão avançar lado a lado.
O EFEITO DOMINÓ
O turismo é apenas uma das peças. A pavimentação é vista como uma conquista com potencial para produzir efeitos positivos no turismo e no desenvolvimento econômico local. A assessoria da Regional de Infraestrutura e Mobilidade do Sul catarinense classifica a obra como um marco histórico para o extremo sul catarinense e destaca seu papel na integração com o Rio Grande do Sul, na logística e no acesso às atrações turísticas dos dois lados da divisa.
A estrada, portanto, pode alterar a geografia econômica da região. Um produtor rural poderá encontrar novos mercados. Uma pousada poderá receber hóspedes que antes desistiam do deslocamento. Um restaurante poderá ampliar sua clientela. Um guia poderá atender visitantes que chegam por uma nova rota. Um empreendimento de aventura poderá alcançar públicos de outras regiões. O comércio pode sentir o aumento da circulação. E municípios que hoje funcionam como pontos de passagem podem passar a disputar uma parcela maior desse movimento.
É o chamado efeito dominó da infraestrutura. Mas todo efeito dominó exige que as peças estejam preparadas. E é justamente nesse ponto que surge uma das principais preocupações da região.
O GARGALO
A Serra do Faxinal pode ficar pronta antes da rodovia que receberá boa parte do novo movimento. A preocupação se concentra principalmente na SC-290, entre Praia Grande, São João do Sul e a BR-101.

Presidente da Associação dos Municípios do Extremo Sul Catarinense (AMESC) e prefeito de São João do Sul, Alex Biachin reconhece que o aumento do fluxo já está entre as preocupações dos municípios. Segundo ele, Praia Grande e São João do Sul começam a buscar articulações e parcerias para enfrentar os impactos da nova realidade.
O desafio está no trecho que vem depois da serra. Em boa parte do percurso, a SC-290 ainda é uma estrada de pista simples e sem acostamento, por onde circulam moradores, trabalhadores, produtores rurais e veículos de carga, além do fluxo turístico que tende a crescer.
Entre as demandas apresentadas ao Governo de Santa Catarina estão a implantação de acostamentos e de ciclovias. Em São João do Sul, há projetos em discussão para os trechos entre o município e a comunidade de Encruzo e entre o trevo da BR-101 e o centro.
Para Alex, a segurança também exige atenção à sinalização e à fiscalização. O município já solicitou a instalação de equipamentos de fiscalização eletrônica e de dispositivos para redução de velocidade nos perímetros urbanos.
A pavimentação da serra, portanto, não termina no alto da montanha. O novo fluxo precisará encontrar uma rede viária preparada para recebê-lo.
FLUXO DIVIDIDO
Existe ainda uma possibilidade de aliviar parte da pressão sobre a SC-290. Alex Biachin cita a pavimentação da SC-108, entre Praia Grande e Jacinto Machado, que poderá distribuir parte do fluxo e reduzir a concentração de veículos em direção a São João do Sul.

A possibilidade reforça que os efeitos da Serra do Faxinal não podem ser analisados isoladamente. Quando uma estrada muda, outras vias entram na equação e a circulação regional pode ser redistribuída.
A AMESC já acompanha esse cenário. Segundo Alex, os prefeitos buscam antecipar medidas para que a nova demanda não encontre uma infraestrutura despreparada.
Há também uma particularidade que precisa ser considerada. Máquinas agrícolas e carroças não representam hoje um grande problema de circulação, segundo o prefeito, porque as prefeituras orientam esses usuários a utilizar caminhos municipais alternativos. Em eventos específicos, como festas do carro de boi, há reforço na sinalização e no acompanhamento do trânsito.
É um retrato de uma estrada que atravessa muito mais que uma paisagem turística. A SC-290 passa por uma região onde a vida rural permanece presente e onde diferentes formas de deslocamento dividem o mesmo espaço.
Moradores, produtores, ciclistas, motociclistas, caminhoneiros, famílias e visitantes precisarão caber na mesma estrada. O desafio será fazer com que o novo fluxo encontre espaço sem deixar ninguém para trás.
O FUTURO
Enquanto a obra avança, a estrada começa a experimentar uma situação simbólica: o futuro já circula por ela, ainda que de forma parcial. A liberação de veículos leves, em períodos determinados e pelo sistema de siga e pare, marca a transição entre a estrada que ainda está sendo construída e aquela que, em breve, poderá ser percorrida integralmente.
A Serra do Faxinal começa, assim, a deixar de ser apenas uma promessa. Torna-se uma nova possibilidade de mobilidade, integração e desenvolvimento para uma região que há décadas olha para a montanha como caminho e desafio.
A história da Serra do Faxinal começou muito antes do concreto. E não termina com ele. Primeiro, foi preciso abrir uma passagem pela montanha. Agora, pavimentá-la. O próximo capítulo será descobrir o que essa estrada será capaz de trazer, e como a região estará preparada para receber.