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Preservar vozes e rostos humanos

por Nicole Corrêa Roese

Resumo aqui a mensagem do papa Leão XIV para o 60º Dia Mundial das Comunicações, de extrema importância para todos nós.

O rosto e a voz são traços únicos e distintivos de cada pessoa; manifestam a sua identidade irrepetível e são elementos constitutivos de cada encontro. Rosto e voz são sagrados. Foram-nos dados por Deus, que nos criou à sua imagem e semelhança, chamando-nos à vida com a Palavra que Ele mesmo nos dirigiu.

Desde o momento da criação, Deus quis o ser humano como seu interlocutor e imprimiu no seu rosto um reflexo do amor divino, para que pudesse viver plenamente a sua humanidade através do amor. Preservar os rostos e as vozes humanas significa, portanto, preservar este selo, este reflexo indelével do amor de Deus. Não somos uma espécie feita de algoritmos bioquímicos predefinidos antecipadamente: cada pessoa possui uma vocação insubstituível e irrepetível, que emerge da vida e se manifesta precisamente na comunicação com os outros.

Ao simular vozes e rostos humanos, sabedoria e conhecimento, consciência e responsabilidade, empatia e amizade, os sistemas conhecidos como inteligência artificial não só interferem nos ecossistemas informativos, como também invadem o nível mais profundo da comunicação: as relações entre as pessoas.

O desafio não é tecnológico, mas antropológico. Preservar os rostos e as vozes significa, em última análise, preservarmo-nos a nós próprios. Aceitar, com coragem, determinação e discernimento, as oportunidades oferecidas pela tecnologia digital e pela inteligência artificial não é sinônimo de esconder de nós mesmos os pontos críticos e os riscos.

Renunciar ao processo criativo e entregar às máquinas as próprias funções mentais e a própria imaginação significam enterrar os talentos recebidos para crescer como pessoas em relação a Deus e aos outros. Significa esconder o nosso rosto e silenciar a nossa voz.

A tecnologia que explora a nossa necessidade de relacionamento pode não só ter consequências dolorosas para o destino dos indivíduos, mas também prejudicar o tecido social, cultural e político das sociedades. Outro grande desafio que estes sistemas emergentes colocam é o da distorção.

O desafio que nos espera não é impedir a inovação digital, mas sim orientá-la, estando conscientes do seu caráter ambivalente. Cabe a cada um de nós levantar a voz em defesa das pessoas, para que estas ferramentas possam realmente ser integradas por nós como aliadas. Esta aliança é possível, mas tem de se basear em três pilares: responsabilidade, cooperação e educação.

Como católicos, podemos e devemos dar a nossa contribuição. É importante educar e educar-se para utilizar a IA de forma intencional e proteger a própria imagem: o próprio rosto e voz. É necessário preservar o dom da comunicação como a mais profunda verdade do ser humano, para a qual também se deve orientar toda a inovação tecnológica.

(Síntese da mensagem do Papa Leão XIV, feita por Dom Jaime Pedro Kohl)