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O risco de um Dia das Mães

por Anderson Weiler

Neste final de semana em que é exaltada a figura da mulher mãe busco também cumprir com o propósito desta coluna: provocar.

Diante de um cenário em que os casos de feminicídio vem batendo recordes, é preciso ficar atento a uma cultura de posse e propriedade que a sociedade machista exerce sobre as mulheres. Há quem prefira o termo “cultura de domínio”. E uma das expressões deste modelo é a delimitação de espaços.

Minha preocupação e provocação nestes dias em que destacamos a mulher mãe é esta: até que ponto não estamos, com esta data, delimitando o espaço das mulheres na sociedade como o espaço de mães. Prova disso é que não vemos o mesmo empenho por ocasião da passagem do dia dos pais.

O projeto social que em tudo visualiza possibilidade de mercadoria,  investe pesado em momentos que julga oportuno para seus intentos. Esta semana é mais uma prova disso. E o faz a partir de um estereótipo que delimita espaços às mulheres. As sugestões de presentes vão nessa direção. É comum lojas anunciarem promoções de máquinas de lavar roupa. Ou mimos que focam a mulher mãe e não a mãe mulher.

Até que ponto esta exaltação da maternidade feminina não se transforma também numa delimitação de espaços? Uma mulher exemplar é necessariamente uma mãe exemplar? E a mulher que opta pela não maternidade deixa de ser mulher?

Vejo  também, com frequência, outro gesto que reforça estereótipos machistas em relação às mulheres. A ideia de “almoçar fora” no dia das mães ou, então, o marido e filhos assumindo a cozinha. Novamente uma atitude que pode caracterizar a delimitação de espaços em que mães são dispensadas de um serviço que lhes é atribuído de forma intrínseca: cuidar da casa, da cozinha e da comida.

Celebrar um “Dia das Mães” deveria ser um gesto de reconhecimento de um poder das mulheres que vai para muito além do exercício de domínio de homens machos. Já o foi em outros tempos e culturas em que a maternidade justificava poder sócio político. Por que não resgatar?